sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Musa

De saia rodada no vento. De branco sob a chuva. Vagabunda. Devaneio de poeta pornográfico. Os olhos pintados. Gatinho. O batom vermelho. O decote. Biscate démodé. Poeta sofre. Musa sádica. Descendo a rua. Como se fosse dela. Pisca e sorri. Para o desespero dos versos. Brancos. A alcinha inquieta. Frenética. Contornos indecifráveis. Um último decassílabo chorado. O fim do soneto. Poeta na sarjeta. Bêbado. Vagabundo. Ela desfilando. A bunda. Rebolando. O corpo. Jogando os cabelos. Deixando o cheiro. Arranhando as costas. Deixando as marcas. Ressuscitando o poeta. Com os olhos. Matando o poeta. Com o gosto. Pobre homem. Vítima dessa inspiração maligna. Rima abstrata. De cara no concreto. Uivando às minguas. Às margens da crônica mal escrita.

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