sábado, 4 de dezembro de 2010

Cinza-qualquer-coisa

Então, eu coloquei meu velho moletom, aquele que você não conheceu, o meu preferido, porque bem no dia em que eu te esperava com ele, você não foi mais. Até foi. Depois. Outros dias. Mas nunca mais dividimos a minha cama. Nunca mais a intimidade das roupas velhas ou do encontrar de corpos nus durante a noite. Gostava quando tinha você embaixo do cobertor comigo ou quando tinha a gente morrendo de calor e evitando os lençóis. Enfim...

Coloquei meu velho moletom, liguei a vitrola e... A nossa música. Rituais da saudade. De quem leva um pé na bunda, não se livra do amor, nem das lembranças. E sente que às vezes é preciso deixar o pensamento tomar o rumo que procura há dias depois de tanto disfarçar que não pensa mais. Fui lá viver nós dois na memória. Você sendo apresentado ao sofá da sala às cinco da manhã. Rindo da minha calça rosa, que, vai, não tem nada a ver comigo mesmo. E tantas outras coisas que vivemos no meu apartamento, embora tenha sido no seu que a gente passou a maior parte desse nosso amor de inverno.

O velho moletom não esquenta tanto. Velho, né? E dá saudade do abraço, porque seu abraço esquentava. Queimava. E eu cabia nele e me encaixava de tal modo que parecia ter sido feito pra mim. Quantas vezes te disse isso... Bem mais do que disse 'eu te amo'. Deveria ter dito mais. Deveria ter dito antes. Eu já senti que era amor tão de cara. Aí sobrou dizer eu te amo por aí, para as paredes, para as cartas que não foram entregues, para as preces que olha só, eu tão descrente, dei de fazer.

E fiquei ali, remoendo as coisas não ditas, as que foram ditas demais, as que nem deveriam ter sido mencionadas, as que eu queria continuar dizendo. Remoendo que, apesar de me gostar tanto naquele moletom - não porque fico bonita, afinal ele é velho e meio feio, mas porque fico muito eu mesma e mais manhosa que o normal - você nunca vai me ver assim. Então, bem, era hora de desligar a música que já repetia há muito, parar de pensar e fugir mais um pouco. De você e de mim.

2 comentários:

Pedro Ramos disse...

Sentir amar, sentir amor, sentir a dor, sentir...
Quando a "vida" nos toma algo que queremos muito...
Quando o querer dói...
Quando o doer é necessário...
Quando a unica necessidade que terá por muito tempo, não será preenchida...
Preste muita atenção na dor, pois ela nos lembra que estamos vivos!
Quando a dor for insuportável...
Lembre-se que você tem sorte...
Pois pode amar a qualquer um desse jeito forte...
E com toda certeza se o amor que sentes é puro e verdadeiro, você poderá se apoiar nele, se levantar e ver, que quem perde um amor não é você, e sim quem deixou de ver a importância do que você sente...
Não existe amor sem dor...
Não existe dor sem vida...
Não existe vida sem amor...

Th-Alice Star disse...

Que lindoooo! Poxa... Amores intensos quando acabam deixam um vazio do caralho. E as coisas ditas, ditas pouco, ditas demais e principalmente as não ditas, nos deixam reflexivas e melancólicas. Tentamos fazer análises e damos importância a coisas tão simples, mas que pra nós faz tanta diferença (como um moletom velho), que acabamos por nos achar bobas. E é nesse momento que realmente descobrimos. ERA AMOR. ERA MESMO.

Parabéns pela inspiração. Pelos textos. Pelo sentimento. Por tudo.
Escreva sempre e sempre, sou sua fã. Beijos.