quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Só quatro anos...

Subiu a escada silenciosamente, não queria que eu a percebesse. Como se eu já não tivesse ouvido seus gritinhos pelo quintal... Passo miudinho, um chapéu três vezes maior que a cabeça e uma boneca de pano arrastando no chão.

E por mais que eu soubesse que ela estava chegando, fui surpreendida quando num pulo só veio parar no meu pescoço. Agarrou-se e pediu para que eu girasse muito rápido. Girei. Até caírmos zonzas no chão de tanto rodar.

Caímos e ela continuava ali, firme e forte quase me sufocando com tanto abraço. Quando perguntei o motivo de tanto carinho e tanto aperto ela não exitou e disse que era saudade. Saudade. Ela tem quatro anos e entende de saudade. Tanto entende que sabe como matar esse sentimento que vai deixando a gente meio melancólico conforme cresce a falta.

Parava. Olhava. E dá-lhe mais abraço. E ficou ali por tanto tempo que eu nem cabia em mim de tanta alegria. Sabida essa pequena! Quando cansou do abraço pediu 'cheirin'. O tal do carinho com a ponta do nariz que ela tanto ri quando eu faço.

Mais uma vez abraçou. E quando já era de ir embora, sorriu meio tristinha. Ela também já aprendeu que a saudade aperta quando ainda nem tem ausência, mas se sabe que vai ter.

E hoje quando o telefone tocou, era ela. Falou uns cinco minutos sem que eu conseguisse entender nada. Lembro de ter ouvido algo sobre a escolinha, o aniversário do irmão, uma comida qualquer que experimentou na casa de não sei quem. Palavras soltas. Fez silêncio. E falou de saudade. Que não gostava de telefone porque não dava pra sentir o 'cheirin'... Pediu para que eu voltasse...

Aprendeu cedo, muito cedo... Aprendeu o que é saudade, o que é matar a saudade e o que é tentar enganar a saudade e descobrir que não adianta, ela vai continuar ali. Quatro anos e já entendeu da vida coisas que até hoje nem eu entendo bem e que muitas pessoas nunca vão entender...

Brigada Duda, brigada mesmo!

Um comentário:

Th-Alice Star disse...

Oh meu Deus. Você escreve divinamente bem! É tão leve e passa tanto sentimento pelas palavras. Ontem eu achei um texto seu... "Chutar cachorro morto". E identifiquei-me TANTO TANTO TANTO que tive que procurar mais coisas que você escreveu. Do dia pra noite já se tornou uma das minhas escritoras prediletas. Obrigada por escrever. É tudo tão original, particular e ao mesmo tempo tão inspirador e universal. Amei mesmo. De coração. Parabéns. Escreva sempre. Encante-nos eternamente. Beijos.