Subiu a escada silenciosamente, não queria que eu a percebesse. Como se eu já não tivesse ouvido seus gritinhos pelo quintal... Passo miudinho, um chapéu três vezes maior que a cabeça e uma boneca de pano arrastando no chão.
E por mais que eu soubesse que ela estava chegando, fui surpreendida quando num pulo só veio parar no meu pescoço. Agarrou-se e pediu para que eu girasse muito rápido. Girei. Até caírmos zonzas no chão de tanto rodar.
Caímos e ela continuava ali, firme e forte quase me sufocando com tanto abraço. Quando perguntei o motivo de tanto carinho e tanto aperto ela não exitou e disse que era saudade. Saudade. Ela tem quatro anos e entende de saudade. Tanto entende que sabe como matar esse sentimento que vai deixando a gente meio melancólico conforme cresce a falta.
Parava. Olhava. E dá-lhe mais abraço. E ficou ali por tanto tempo que eu nem cabia em mim de tanta alegria. Sabida essa pequena! Quando cansou do abraço pediu 'cheirin'. O tal do carinho com a ponta do nariz que ela tanto ri quando eu faço.
Mais uma vez abraçou. E quando já era de ir embora, sorriu meio tristinha. Ela também já aprendeu que a saudade aperta quando ainda nem tem ausência, mas se sabe que vai ter.
E hoje quando o telefone tocou, era ela. Falou uns cinco minutos sem que eu conseguisse entender nada. Lembro de ter ouvido algo sobre a escolinha, o aniversário do irmão, uma comida qualquer que experimentou na casa de não sei quem. Palavras soltas. Fez silêncio. E falou de saudade. Que não gostava de telefone porque não dava pra sentir o 'cheirin'... Pediu para que eu voltasse...
Aprendeu cedo, muito cedo... Aprendeu o que é saudade, o que é matar a saudade e o que é tentar enganar a saudade e descobrir que não adianta, ela vai continuar ali. Quatro anos e já entendeu da vida coisas que até hoje nem eu entendo bem e que muitas pessoas nunca vão entender...
Brigada Duda, brigada mesmo!
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Só quatro anos...
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