quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Desconstrução

Sentou no banco improvisado da pracinha como se fosse sofá. Esparramou-se como se fosse gordo e arrotou como se não tivesse fome. Não tinha mulher para amar, nem filho para beijar. Vivia naquelas ruas como se fossem dele. Como se dele fosse sua própria vida.

Aos passantes, sorria. Como se tivesse dentes. E oferecia abraços. Como se fosse íntimo. E pedia comida, como num restaurante. Trajava trapos como se fosse elegante. E recitava Byron como se fosse poeta. Como se fosse ator. Era ator. Caminhava pela rua como se fosse palco. Agradecia aos pedestres como se fossem platéia. Dirigia sua peça, como se fosse um sucesso. Em caixas de papelão como se fossem camarim.

Encenava como se estivesse ébrio. Atravessava a rua como se desfilasse, flutuando como se fosse pássaro. Caia como se não fosse óbvio. E gargalhava. Como se estivesse feliz. Talvez estivesse. Como se fosse possível. Fazia da feira sua festa e beliscava frutas e pastéis como se fossem bundas. E elogiava bundas como se fossem comida. E se permitia homem como se fosse amado.

Levantava às seis como se fosse trabalhar. Sentava na padaria como se fosse pedir café. E deitava no balcão como se fosse cama. E reclamava da vida como se fossem ouvir. E pedia conselhos como se fossem dar. Despia-se como se tomasse banho. Era expulso como se fosse bandido. Xingava como se tivesse razão. Era xingado como se estivessem certos.

Gritava por socorro como se quisesse. Fazia-se de coitado como se fosse. E choramingava como se estivesse triste. Falava de sua mãe como se a amasse. Falava do governo como se fosse oposição. E declamava Chico como se fosse amigo. Como se na poesia da canção encontrasse motivo. Como se precisasse de motivo pra continuar.

Não calava-se com a boca de feijão. Não havia feijão. Não calava-se. Não me falou de nome. Disse que não tinha. E não deveria ter. E se nome não tinha, quem dirá rumo. Olhou-me daquela vez como se fosse a última.

2 comentários:

Anônimo disse...

Que pena ter que esperar tanto por um post. Parabéns pela homenagem ao Chico, muito bom, como sempre!

Anzi disse...

se superou! to orgulhosa!