Poucos gestos são mais bonitos. Tem um quê de amor antigo nas palavras derramadas do coração ao papel. Vai caindo letrinha por letrinha dos olhos em lágrimas, cheios de sentimento e cheios de dor. Carta bonita é carta de amor doído. De saudade, então. Morro quando leio.
Carta de amor saudoso. Aquela falta mansa. Peito dilacerado, mão tremendo. Uma palavra enrosca na outra, a rima ocasional, a aliteração descuidada, o desespero do parágrafo de 20 linhas. Respira. Não dá. Soluço e o amor doendo, doendo feito facada no tendão, dor do caralho. Tentando traduzir em verbete o que nem sabe que sente. E a saudade aperta. Coloca um pouco do si no envelope, há de ter envelope, carta bonita tem envelope, e o papel onde se põe as moléstias da alma não pode ser pautado. Sem linhas. Que dor de amor não é linear. E fica bonita assim, a letra sofrendo junto, deslizando desesperada. E se carrega um cheirinho, perfeição.
Podem falar de flores, cartões, jóias, pedidos de casamento, email inesperado, telefonema às três da manhã, carinho onde bem a gente gosta, sussurro gostoso no pé do pescoço e arzinho quente que molha. Tudo muito lindo, mas fica mais lindo quando vira lembrança em carta. Ah! Aquele amor choroso, pedindo pra gente voltar, pedindo pra ficar junto, amanhecer contando estrelas num telhado vagabundo. Ou pedir pra ir embora, como quem pede se contradizendo... É de fazer chorar.
Não vale passar a limpo. Coisa de primeira, escreve uma linha e rabisca e é charme. Descobrir o que há por baixo do ninho de vai-e-vem do nanquim. Às vezes só escreveu errado, às vezes não era pra dizer. Deixa ficar. Deixa estar. O sentimento se entende no silêncio daquele intervalo ininteligivel. Segundo de reflexão. Pausa pra pegar mais fôlego. Mais uma chuva de declarações em prosa. Rabisco. Pausa. Nesse ad infinitum literal, é vírgula, porque no fervor da escrita, não cabe pensar muito bem os pontos e quem escreve não quer ponto, talvez três pontos e por aí vai.
Coloca o endereço meio em dúvida, será que ainda mora lá? Tem mais graça quando é amor de longe. Mais de 500km pra fazer valer. O papel meio surrado de tanto ser revirado e relido, a marca fragilizada da dobra, puindo as bordas, meu deus, que sofrimento sem tamanho. Bota o selo, recusa a cola, vai um pouco mais de amor, um pouco mais do amor que sente quem escreve. E quem escreve se entrega. E não há entrega mais bonita que a da carta, carta de dor. Já dizia o escritor, 'quem não escreve, não sente'.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Das cartas de amor...
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