sexta-feira, 16 de julho de 2010

Carta para o meu pai

Gode,

Pois é, essa semana foi seu aniversário, dia 14, e eu que sempre estive aí para dividir o pudim de laranja e roubar um pedaço de rocambole de doce de leite ainda quente, só consegui te ligar de noite. Na verdade foi quando eu tive coragem, porque simplesmente não conseguia encarar que não estaria aí para te dar os parabéns e te puxar as orelhas e dizer mais de mil vezes o quanto eu te amo.

Não preciso de pretexto como datas especiais para ficar tagarelando isso nas suas orelhas, mas aniversário é aniversário e eu queria te abraçar. Foi quando eu tive certeza de que não daria tempo e não teria como que eu decidi que teria de me portar como uma pessoa decente e deixar minha manha de lado... Liguei, engasgada... Todo mundo que sempre estave lá, estava mais uma vez, faltou eu. Droga!

Disse tudo que tinha pra dizer, que te amava, que tinha acabado de ganhar meu primeiro salário e você riu feliz, aquela risadinha imitando riso de criança. Porque a gente tem esse costume, de falar como se fosse criança. Dignidade é isso: um marmanjo bigodudo e um mulherão de 1,75 falando feito dois bebês. Gosto assim, pai. Gosto da gente exatamente assim.

Foi a primeira vez que me senti gente grande de verdade. Eu não estava na festa de família porque estava trabalhando e não podia sair mais cedo. Não podia pegar o primeiro ônibus para São Roque, não podia porque agora eu tinha responsabilidades. Pai, justo eu que sempre tive síndrome de Peter Pan e queria ser eternamente sua pequena, eternamente criança. Pois é, cresci. Mas eu ainda sinto como quando tinha 4 anos e cabia direitinho no seu abraço. Porque o seu abraço é dos que eu mais gosto, pai.

Pizza portuguesa, verdão, desenho animado, ovo cozido, a paixão pelo sofá azul, tanta coisa que eu gosto e que eu sei que é coisa sua. Fico feliz quando me reconheço em você. Em gestos, palavras, gostos ou qualquer coisa que me faça mais ainda tua filha. A preguiça eu não sei de quem veio, nem você, nem mamãe são dados ao ócio, mas tudo bem, isso rende boas piadas e no fim, eu sei que vou superar esse defeito. Um dia, quando a preguiça passar...

Sabe, gode, agora é sexta à noite e amanhã tou aí pra te dar o abraço e pagar a pizza que prometi com o primeiro salário.... Pizza portuguesa, óbvio... E um pouco antes a gente vai assistir juntos pica-pau e vamo comer pão de queijo e talvez eu roube um pedaço do rocambole ainda quente (que mamãe prometeu fazer outro) e a gente vai sentar na mesa e você vai ficar fazendo piadas pra provocar a D. Cida e eu vou dar risada até doer a barriga!

Obrigada, pai. Por tudo. Por cada chazinho nas manhãs frias, por cada vez que você deixou o chuveiro ligado antes de me acordar só pra deixar o banheiro mais quentinho. Por cada rock and roll que a gente ouviu junto e por cada música brega que a gente cantarolou. Por amar meus ovos mexidos. Por me ensinar que sabedoria, das boas, vem da vida. E por ter a delicadeza de toda sexta-feira comprar uvas pra mim, as minhas preferidas, do jeitinho que eu gosto. E que ficam me esperando geladinhas, só minhas, porque esse é o seu jeito de dizer que por mais que eu tenha virado um projeto de gente grande, eu vou ser sempre a garotinha do papai.

Da tua maior fã,
Gode

Um comentário:

Anzi disse...

Que lindo!
Vc é foda...segunda vez que vc me faz chorar nessa viagem!!!

Te amo