quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crônica enxaqueca crísica

A enxaqueca não deu trégua... Não conseguiu pensar em levantar da cama antes que a fome do almoço batesse. E foi bater lá pelas três da tarde. Almoçou, deu um jeito no apartamento e deixou tudo aparentemente arrumado, não fosse o cheiro absurdo de cigarro entregando os excessos da noite anterior...

A enxaqueca, como pode pensar você, sádico leitor, não era fruto de nenhuma bebedeira. Problema antigo, de infância, coisa crônica. Tratou de tudo que é jeito e não acertou. O jeito, então, foi se acostumar. Mas tinha dias, como hoje, que parecia que ia morrer se ousasse apressar o passo. Sensação de pressão baixíssima. Merda. Sentou e ficou. Dormiu. Finalmente. Seis da tarde.

Precisava estudar. Deveria. Não conseguiu. O trabalho a ser entregue amanhã (logo mais, na verdade) seria feito no intervalo das aulas. Não dava pra olhar para o computador, não dava pra raciocinar em paz... O zumbido no ouvido era constante. Vacilasse a cabeça para a direita sentiria o peso do mundo a um passo de derrubá-la pro inferno. Recostada no sofá, a nuca parecia ser atirada contra uma longa agulha precisamente posicionada para lhe atravessar o crânio. Impossível continuar daquele jeito. Voltou para a cama e tentou abrir os textos para estudar. Pegou no sono de novo. Não durou muito.

A conversa das meninas na sala a distraía, resolveu ir para lá. Uma pizza requentada no microondas, um copo de guaraná sem gás e o olho pedindo pra fechar e dormir em paz... Agora era aquela hora em que começava a ouvir os barulhos... Se fosse parar pra prestar atenção poderia dizer que eram vozes, mas vá, vozes na cabeça era tudo que ela não precisava ter. Tudo psicológico ia matutando enquanto as meninas falavam sem parar. Pode ser eco. Eco não era. Aqueles barulhos de fora eram diferentes dos de dentro. Deixou pra lá. Vozes. Ha ha ha.

Resolveu que deveria estudar lá pelas onze da noite e se obrigou a fazer isso com ou sem dor. Seria com dor. Zumbido. Que grande dia. Começou a ler... Os textos eram legais, o professor era perfeito, tinha estímulo para continuar sua jornada estudantil até dar fim a todo aquele material e sentir que valia a pena acordar cedo no dia seguinte para fazer a prova. Acordar... Se é que conseguisse dormir. Difícil se concentrar na leitura com as vozes... Eram vozes mesmo? Já estava no maior papo reflexivo consigo mesmo e com as vozes quando leu o texto de um jornalista bem louco de ácido. Será que com ácido as vozes paravam? Será que melhorariam? Preferiu não tirar a dúvida. Vai que dá certo.

Fez uma playlist com canções dos Beatles. Tudo de dor de amor. Ela estava sentindo o amor doer naquele momento. Era amor? Não sabia. Ele não perimitia que ela descobrisse. Medo disso, daquilo. Droga. Vontade de desistir. Mas tinha aquela sintonia toda. Aquela. E mais uma tonelada de carinho junto. Difícil desligar como quem aperta um botão de on/off... Definiu as lembranças em ordem aleatória e ficou ali sorrindo um sorriso meio que lamento, meio que felicidade. Mania de gostar. Mania de ir de cabeça. Queria poder dar um passo pra trás. Tarde demais. Tanta gente legal e foi justo se meter com quem não podia. Parabéns. Passou o dia esperando por ele, não que ele tivesse prometido aparecer. Era só aquela espera eterna a que se propõem os apaixonados mais idiotas. E a nuca doía. E o coração também. Tem horas que só Beatles dá conta. E continuava a botar fé na frase que proferia tanto ultimamente: eu acredito no poder de cura de um refrão. John e Paul sabem das coisas. Ela também sabia.

Ficou ali jogada no sofá até às quatro e pouco da amnhã. Quando terminou de estudar (leia-se: passou os olhos pelo conteúdo e deu-se por satisfeita) não tinha sono. E as vozes, ora essa, estavam tão amigáveis que seria um pecado deixá-las sozinhas. Acendeu um cigarro e ficou tagarelando com seus novos amigos. Tudo gente boa. Só faltava dar nome. Mas sabe como é... Isso é igual cachorro, é só dar nome que você se apega. E não andava muito afim de se apegar a coisas mais abstratas do que já tinha se apegado. Imaginação fértil.

O pé gelado já ia dar sinais de abandono do corpo se ela ficasse mais tempo na sala. Tudo fechado e o vento gelado persistia. Decidiu ir dormir, ao menos deitar. Enrolou-se no cobertor do Mickey e sentiu que a madrugada ainda ia lhe roubar mais umas horas de sono. Decidiu escrever. E ficou escrevendo aleatoriamente asneiras sobre si mesma. E a enxaqueca doendo, presente contínuo mesmo. Dor que permanece e insiste. Doendo. Leu o texto em voz alta para os novos amigos. Aprovaram. Louca. Apagou a luz, desligou o notebook e enfiou o fone de ouvido já que os amigos não pareciam querer deixá-la em paz. De Beatles para Chick Corea. Tem horas que nem Jesus, nem jazz salvam.

Bom dia.

Um comentário:

Cleitão disse...

Não que eu tenha capacidade intelectual para analisar ou criticar, mas como sempre, mais um ótimo post!! hehehe
Beijos