sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma vida em uma noite I

Entrou em casa como quem anda em meio às quinquilharias da loja de antiguidades, desviando de vasos, miudezas e ruídos. Um esbarrão sequer poderia lhe custar caro, acordaria a mãe, acordaria o gato, acordaria seu pai.

Vacilou. Não, não esbarrou em nada. Vacilou no pensamento. Não haveria ninguém ali, além do gato, que pudesse acordar com qualquer barulho que fizesse. Poderia ter orgasmos múltiplos no tapete da sala e gemer feito uma vagabunda. Ninguém iria ouvi-la. Culpa da bebida, imagina só... Sua mãe morrera há três anos e o pai... Bem, o pai ela nem sabia quem era, exceto por uma foto.

Willie Nelson veio deslizando pelas colunas do velho apartamento, um miado magro, de quem não via comida há três dias. Ela deu uma gargalhada do gato esquelético, depois sorriu, quis levá-lo até a cozinha, mas estava bêbada demais para tanto esforço. Tirou um chiclete velho do bolso e deu pro bichano, que, se humano fosse, teria mandado-a para a puta que pariu. Sentiu nojo. Quis vomitar. Segurou. Não queria ter o que limpar na manhã seguinte, não queria ir até o banheiro, queria deitar naquela cama desarrumada e desmaiar, como quem dorme o sono dos justos.

A droga e a bebida competiam pela medalha de ouro no quesito efeito colateral. Quando se jogou na cama só teve tempo de virar para o lado e vomitar no que seria a almofada do gato infeliz. “Merda”. Não que ligasse muito pro animalzinho, mas aquele cheiro a noite toda era azar demais. Tacou a almofada pela janela. Deve ter caído no meio da Consolação. Um ‘ai’ ecoou pela rua e ela desejou que tivesse acertado em uma puta. Puta ela também era, afinal, era com os programas que mantinha seus vícios. Mas eram esporádicos, “transas ocasionais”, ela dizia debochada.

Junto com o vômito, foi-se o sono... E mais uma noite, ou manhã - pela claridade de um Sol que ameaça nascer outono em verão - ela permaneceria acordada. A insônia era costumeira, velha conhecida desde que contar os anos cabia nos dedos de uma das mãos. Mas naquela noite ela queria descansar, estava exausta, não que tivesse trabalhado muito. Depois de foder horrores, as pernas pareciam estar em permanente dormência, as pálpebras se encontravam, mas ela continuava lúcida, quem visse, diria que estava dormindo profundamente, mas estava atenta, e para distrair da eternidade de uma manhã que se prometia preguiçosa, ela deixou que as cinco trepadas seguidas levassem à lembrança dele. Era para ele que ela ouvia aquela canção. Aquela.

Dele ela já até tinha cobrado pelo sexo, mas faria de graça a vida toda, se ele pedisse. Com ele ela gostava de curtir, era sintonia pura, era tesão total, era até amor, juraria ela na hora do êxtase e em tantos outros momentos de sanidade também. Com ele dava gosto, ela sentia prazer de verdade e depois de toda a selvageria e de ser virada do avesso, ele aninhava no colo e tinha a delicadeza de chamar aquele mulherão de pequena, ‘minha pequena’, ele costumava falar. E ela gostava... Com ele se sentia segura, com ele passaria o resto de sua vida, por ele ela largaria o emprego medíocre na Consolação e, principalmente, os bicos na Augusta.

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