terça-feira, 4 de maio de 2010

Em casa...

Deixaram a amiga no portão do prédio, não era tarde, início da madrugada de uma quinta ou quarta-feira. Agora estavam a sós no carro e tinham um longo caminho de volta até as redondezas da Consolação.

Não se importava em sentar com os pés no banco mesmo de vestido... Ela não sentia vergonha, aliás, ele era daqueles amigos que a deixavam completamente a vontade... com ela mesma. Acendeu um cigarro enquanto cruzavam uma grande avenida, ele dirigia, ela sentia o vento no cabelo. Embora não fosse uma noite quente, ela gostava de sentir o ar fresco no rosto, aquela sensação forjada de liberdade.

Soltou alguma das suas verdades. Adorava soltar afirmações malucas com a maior naturalidade e se divertir diante do assombro das pessoas. Com ele ela sabia que a reação não seria assombro, mas uma gargalhada de quem finalmente, depois de um papo com trezentas pessoas numa mesa de bar, reconhece a amiga da intimidade: 'aquele povo não gosta de trepar!'. Ele como o esperado, riu. Não via a hora do assunto começar. Não havia melhor conversa do mundo para os dois do que sexo.

Como de costume perguntou a razão daquela afirmação, e ela, que adora explicar o que lhe parece muito natural, iniciou... 'aquela gente não trepa porque não tem cara de que trepa'. Continuou. 'Quem trepa fica com cara de sexo, por mais nerd que seja, você percebe nos olhos da pessoa que ali tem... Sou ótima em identificar os tipos'

Ele sorriu e ela sentiu que era pra prosseguir. Ajeitou o cabelo. Tinha essa mania, jogava de um lado pro outro. E com aquele cigarro na mão, sentada daquele jeito figurava uma perfeita puta. Perfeita puta ela seria, por curiosidade. "Não dizem que trabalho tem que te dar prazer?" Puta seletiva, oras. Trepa com quem quer e ainda ganha um dinheiro. Nunca entenderia o preconceito com as putas. Tanta gente fazendo dinheiro de tanto jeito errado, ela faria com sexo. Gozaria horrores e ainda ganharia para os luxozinhos extras, esses mimos que as pessoas se permitem no íntimo da sua futilidade.

"As pessoas parecem não gostar mais, tanto jovem com essa carinha de blasé. Transitam entre os gêneros beijando quem aparecer na frente, mas na hora de trepar a coisa não pega, não tem aquele lance forte de pele. Sempre fica parecendo que é uma coisa como se fosse uma consequência de uma amassada mais forte de uma baladinha." O carro continuava, a conversa continuava e as afirmações continuavam. "Eu trepo porque eu quero trepar, não é consequência de nada. Eu só beijo se eu quero trepar." As pessoas a cansavam no assunto sexo. Liberal demais, livre demais, queria poder mandar todo mundo se foder e foder como se não houvesse amanhã. Mas ainda dependia da mamãe, então era hora de guardar um mínimo de respeito a quem exigia que ela se comportasse de forma respeitosa. Fazia escondido.

"Imagina, tem gente que não gosta de chupar, como pode?! Tem gente que não deixa gozar na boca, tem gente que não gozou na vida!" Ia afirmando entre a indignação e o tédio. Para ela sexo era o altruísmo mais lindo do mundo, era assim que fazia. Sentia prazer em dar prazer ao outro, não se preocupava com o seu, escolhia muito bem os seus amigos de foda e sabia que eles dariam conta de se preocupar com isso. O que interessava era o outro. A busca por esse prazer que vem de quem se sente. Gozava ao fazer gozar, e não media esforços para dar ao outro o que ela queria pra si. "Trepar é lindo. É uma declaração de amor ao corpo, a alma, ao cérebro, a você e ao outro. Como que alguém pode aceitar ter menos do que uma vida sexual ativa?!" Era demais pra ela... "Trepem comigo, com os outros, com si próprios. Vamo, minha gente, trepem!"

Ela foi reconhecendo as ruas, acendeu mais um cigarro, o último do trajeto. Tocava Ramones. Aumentou o som e permitiu-se ficar naquela música-refrão. Em frente ao cemitério trocou mais uma frase de efeito com o amigo, não se lembra o que foi, mas foi alguma coisa que o fez gargalhar. Aliás, ela amava a risada dele. Parceiríssimo. E depois de tanto falarem dessas coisas sexuais e não ginecológicas, desceu em frete a rua do cemitério. Como os Ramones ela não queria, e não seria, enterrada num cemitério de animais.

3 comentários:

Anônimo disse...

Eu que não fumo, pedi um cigarro
Eu que não amo você...

Leticia Born disse...

Cí, como sempre, amo ler o que você escreve!!

mas fiquei com vontade!! peraí que vou chamar o Rahal e já voltooo

hahahahaha
beijoss!!

Marina Galeano disse...

ASNEIRA ALEATÓRIAS INFORMA: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança é mera coincidência.