quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Politicagem discursiva, mané!

Gritam por aí aos quatro ventos que a demagogia tomou conta dos palanques... Pois é, demagogia dói... Mas retórica, meu amigos, a retórica faz milagres. A retórica, veja só, é a elite intelectual dos demagogos

Político que entende de retórica faz chover no deserto e vende terreno fértil no meio do Saara. Mas a retórica não deixa de ser uma forma, cuja estética é louvável, de se mentir. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, essa era da minha avó. E quem floreia o conto, então? Quem dá cor, cheiros, formas e ritmo às palavras de modo que elas se tornam suaves, quase musicais? A persuasão é uma arte!

Porém, melhor do que a politicagem dos políticos, com seus discursos minuciosamente tratados em verdadeiros Photoshops, é a politicagem discursiva do malandro de rua. Esses merecem aplauso!, Fazem disso quase um estilo de vida. E nos arrancam boas risadas quando contam suas espertezas, desde que não sejamos nós as vítimas deles. A retórica das ruas. Aquela que não foi aprendida em cursos de oratória, que não foi ensinada na escola, foi aprendida na marra, porque malandro que é malandro aprende desde pequeno. Retórica de malandro é lábia.

Dava um samba, não? Nada mais digno de malandro do que samba, samba de raiz, aquele samba que não tem ‘qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade’... É samba de alegria pura, cadenciado, próprio para a apresentação do malandro nas bordas da calçada. Puxe uma cadeira. Senta aí. Pede uma bebida que o show vai começar.

Ele convence o português que mês que vem ele paga a conta do pão. Convence a mocinha da floricultura que o coração dele é só dela e com uma rosa que ela mesma vai pagar, o malandro faz cortesia. Convence que mês que vem ele paga. Ele convence a todo mundo que ele é de fato quem ele gostaria de ser. O malandro é perigoso, mas malandro de coração bom, é malandro que encanta, malandro brejeiro, cheio de malícia na cabeça, mas sem maldade no coração. Esses malandros deveriam se tornar patrimônio histórico e deveriam continuar a se vestir de branco e chapéu panamá.

Tenho quase que orgulho quando conheço a mentira e vejo seu autor em plena ação! Gosto particularmente daqueles egoístas que mentem para salvar a própria pele. A grande arma do bom mentiroso é o discurso bem arquitetado! Ele não engasga, ele não hesita em se empolgar num sem fim de casos inventados ao sabor da imaginação, que se bobear, ele mente tão bem que até ele mesmo acredita! E se não tem palavras, melhor! O discurso silencioso - aquela eloqüência que não está em palavras, mas no olhar que se inventa sincero, no sorriso que se abre sem culpa, na atuação magistral do falsário - pode não ser digno, mas é digno de Oscar. E dá-lhe gingado de corpo. Haja malemolência.

E a vitória do malandro é quando ele pensa que mente e a pessoa prefere fingir que acredita. Ele nem precisa da verdade, ele se basta. A gente escolhe acreditar. Discurso de malandro é como molejo de passista, nem que você não goste de dança, o pezinho você não deixa de bater. Malandro contagia. Malandro merecia carteira assinada. - “O que você faz?” – Sou ex-praticante de retórica aplicada, vulgo, malandro aposentado.

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