quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Me engana que eu gosto!

Desde muito cedo, muito antes de você aprender a balbuciar um singelo ‘papai’, ensinaram, e você aprendeu direitinho, o significado da palavra chantagem, ainda mais quando se trata de ser emocional. Pois é, você ainda vivia confortavelmente de colo em colo quando dentro da sua aura pura de ‘coisinha-mais-linda-do-mundo’ plantaram a semente da corrupção.

Sim, aqueles a que você carinhosamente chama de ‘papai’ e ‘mamãe’ impediram que você pudesse encontrar o caminho da dignidade plena ao não ter nenhuma nódoa escura no histórico do seu caráter. E como eles puderam ser tão maus assim? Ingenuidade da tua parte, amigo, se ainda não percebeu que eles também foram vítimas da mesma forma que você, e assim tem sido desde que o mundo é mundo e o ser humano tomou conhecimento (mesmo que inconsciente) de que o poder de persuasão,ainda que partindo de premissas de origem duvidosa, pode fazer milagres a seu favor.

Lembra-se de quando eles te davam algum brinquedinho para que você parasse de chorar? Tão logo você aprendeu que, para além da sua diversão, a intenção crucial desse gesto era fazer com que a paz e o silêncio reinassem no recinto, você aprendeu a espernear alto, e eu digo muito alto, toda vez que queria se entreter com alguma bugiganga. Viu? Eu disse... Se esse exemplo ainda parece pouco... Tem mais, muito mais. Ficaria horas aqui dissecando os mais corriqueiros fatos comuns a quase toda infância só para te provar a minha teoria, leitor ingrato.

Nesse balaio de gato, gosto do caso do xixi... Você aprende a fazer xixi lá no banheiro, aquela história de coordenar entre se livrar de uma parcela de roupa e segurar o dito cujo que teima em querer sair. Todo mundo no maior incentivo para você fazer pipi no Sr. Vaso, afinal, fralda tá caro e ninguém mais agüenta colocar seu colchãozinho no Sol, e nessa hora, nessa exata hora você aprende que para chamar a atenção pelos próximos tempos (pouco para uns, mais para outros) é só ficar bem quietinho em um canto estratégico da casa (canto, mas visível) e esperar que alguém venha verificar o motivo do silêncio, ‘criança quieta é mau sinal’, para que você reine absoluto no hall de assuntos ao fim do dia, ‘pois é, já estava pronta para sair quando eu vi que ele molhou a roupa toda, não sei o que está acontecendo com ele’. A sacanagem pode te render um psicólogo, umas palmadas ou uns míseros minutinhos de atenção entre o chuveiro e a roupinha cheirosa... Mas é sacanagem. E você aprendeu muito bem.

E como tudo que se aprende na infância vai refletir em nossos comportamentos, quem sabe até, pelo resto das nossas vidas, a chantagem emocional, essa forma cruel de fazer uso de toda eloqüência para comover/mobilizar o outro em seu próprio benefício, vai estar sempre lá, como uma carta sob a manga, como um trunfo nos momentos mais oportunos em que a verdade nua e crua ou a mentira deslavada não estão ao seu favor.

Da casa para a escolinha. Quantas maçãs professoras não receberam com o pedido implícito de se corrigir um teste com carinho? Quantas vezes você matou seu cachorro como desculpa para ter esquecido o dever de casa? Quantas vezes a barriga ‘doeu’ na hora do recreio, e com mais alguns ais e uis uma platéia levantaria para aplaudir de pé sua brilhante atuação, quando tudo que você almejava era o direito de assistir à Sessão da Tarde no conforto do sofá da sala?

E depois da escola? Depois da escola vem o trabalho, as amizades. Para todo problema, um ‘jeitinho’. Mas é quando o coração bate mais forte ou quando o tesão não lhe dá paz que você assimila e pratica as mais diversas modalidades desse famoso ‘jeitinho’ para chegar onde quer e com quem quer. E não precisa de nada muito elaborado, não. A coisa pode ser bem simples, quase simplória. Uma gotinha de perfume entre o pescoço e o ombro podem alucinar qualquer cristão de boa vontade.

As meninas aprendem desde cedo o poder de uma alcinha que teima em escorregar pelo ombro quando justificam o abraço mais que apertado daquele amigo que bem parece mais que amigo aos olhos do namorado. Aprenderam a sorrir com a cabeça meio baixa, aquele sorriso meio de lado seguido de um ‘ainda não’, quando fingem que querem convencer que o coitado do menino já foi longe demais. Bonito é o boboca achando que ela só cedeu porque ele insistiu. Ela ia dar desde o começo, acredite! Ela só quis te enfeitiçar. Até os cachorros aprenderam ainda filhotes o poder de uma carinha manhosa, seria demais achar que a sua garota usaria tanto charme sem querer nada em troca...

E os meninos? Os meninos, às vezes mais desajeitados, outras mais convincentes, não com o mesmo charme, mas contando com a sensibilidade do sexo feminino como aliada, também aprenderam a ganhar o que queriam usando uma fórmula muito simples: ‘Você + é + artigo definido + substantivo + adjetivo + da minha vida (ou expressão que o valha). Nada deixa uma mulher com a guarda mais baixa do que a sensação de ser única em algum quesito, é uma massageada no ego, um carinho no ‘eu’, não tem como resistir. Se ele sussurrar com carinho, ela acredita que é a mulher da vida dele, fácil, fácil.

E nos relacionamentos sólidos as chantagens emocionais ganham um dimensão ainda maior. Um show a parte. Fingir que o presente era a surpresa para o último minuto quando, na verdade, você só lembrou às onze da noite que hoje faz 1457 dias do primeiro banho de chuva de vocês dois, e você sabe que isso seria imperdoável. Quando o outro reclamar do ciúme dá pra soltar aquele ‘desculpa se eu te amo demais’ e ver a outra pessoa se derreter toda. Isso de transformar o ciúme em ‘amor demais’ é uma sacada genial. Ainda mais quando acompanhado de certo ar de culpa, como se amar demais naquela hora fosse algo que você gostaria de ter evitado, mas dada a infinita lista de qualidades do outro ser, foi inevitável. Vai dizer que não balança? Só se você, leitor, não tiver sido formalmente apresentado às graças do amor.

Coisas assim não se aprendem com cartilha, com ‘passo a passo’. A gente vai absorvendo, observando e quando menos espera, sabe exatamente como agir. É quase uma arte inerente a todo ser humano, mas que alguns aprimoram em níveis de doutorado dada a eficácia de seus discursos e gestos. Com o cuidado de quem retoca uma obra, dobra o outro sem esforço e depois fica tudo bem. É a arte da artimanha, usada em benefício da arte do amor. Me engana que eu gosto.

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