quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Ao meio-termo, com amor

Sou avessa à posturas extremistas, essa coisa meio maniqueísta de bom e mau, '8 ou 80'. Gosto da vida nas suas contradições e no equilíbrio eternamente desalinhado entre duas coisas opostas.

Há quem ame preto. Há quem ame branco. Eu gosto da mistura. Gosto do cinza que a mistura dos dois provoca, esse cinza de tempo nublado com cheiro de chuva, mas gosto, sobretudo, da fascinante justaposição desses díspares no instigante tabuleiro do xadrez. Sem esquecer das infinitas nuances no retrato de Elis e Tom.

Não tiro o mérito de quem, diante de infinitas possibilidades, se agarra a uma única escolha e se faz fiel a ela. O sacrifício deve ter suas recompensas, mas descobrí-las, no entanto, não são meus objetivos. Gosto dos extremistas porque eles me ensinam que o melhor a se fazer é não ser como eles. Ainda assim é importante conhecer suas causas nobres, suas filosofias gélidas de vida para que eu possa transitar entre elas, não por ignorância ou indecisão, mas pela firme decisão de brincar com os pesos da balança, não para que ela se equilibre, e sim para que ela nunca deixe de balançar.

Nem 20 com jeito de 40, nem 40 com jeito de 20, gosto daqueles que nunca deixam de ter 30. Não seja rebelde a ponto de se ridicularizar em trajes pouco convencionais e de gosto duvidoso e não seja quadrado ao ponto de nunca se indignar com nada... Questione, mas nunca perca a classe e manter a classe permite, vez ou outra, fazer deboche com palavreado chulo, o termômetro, quem dá, é o sorriso irônico que segue.

Dos puritanos eu sinto medo, dos perversos eu tenho dó. Nem vulgar, nem santa. Safa é a mulher que transita entre a dama e a prostituta com a facilidade de ser a primeira em público e a segunda entre quatro paredes. E vez por outra finge que trocou a ordem só para não se tornar previsível.

Nem o banal senso-comum, nem o burocrático conhecimento científico; nem o direitista engomadinho, nem o anarquista esfarrapado; nem o intelectual arrogante, nem o ignorante esgotável; nem só pé no chão, nem só cabeça nas nuvens: um lá e outro cá e de vez em quando plantar uma bananeira.

Direto do vinil de Jazz para a cantoria desafinada de uma canção brega qualquer de Odair José. Entre o cabeludo roqueiro e o limpinho modernoso? Fico com aquele ali, que cantarola The Doors sob o terno bem passado.

Um bocejo para os ateus, um joinha para os fanáticos... Gostoso é fechar os olhos e sentir que existe algo mais que você não consegue ver e em que você acredita, mas que você nunca vai deixar que te controle.

Viciados me entediam, assim como quem nunca experimentou nada. Gostoso é descobrir o prazer que ambos desconhecem quando se permite sorver até o último gole, tragar até o fim, pelo prazer surreal de sentir sabores, cheiros, sensações e estímulos que só podem ser apreciados quando são plenamente vivenciados numa sanidade que se permite loucura, mas nunca escravidão.

Rápido demais cansa, devagar demais também... Deixa o caminho te dizer a velocidade do passo. De vez em quando é bom parar pra olhar o que há em volta, de vez em quando é bom correr pra sentir o vento no rosto. Gostoso também é quando paramos para deixar a brisa nos tocar no seu ritmo singular.

6 comentários:

Marcela Bonazzi disse...

'nem só pé no chão, nem só cabeça nas nuvens: um lá e outro cá e de vez em quando plantar uma bananeira.'

Amei amei amei!!! Disse tudo e mais um pouco!!! Tem que gostar de U2 e Backstreet Boys!!! Tem que assistir Pantanal e Discovery Channel!!!! heehehehe

Sério, amei seu post. Simples, exemplificado e muito explicativo.

Você é bárbara!
Te amo!

Fê Resende disse...

cíntia, que escritos bons! arrasou. e tem razão, mudar de opinião é um luxo - e só se sustenta com opinião nova quem tem mointa segurança. arrasou. =)

Marcela De Mingo disse...

nossaaa cí! arrasou no texto meninaaa!!! (uii me senti muito aquelas manicures super amigas agora!!!)
mas, sério, o texto tá ótimo, lindo demais, muito vc!
e vc tem toda a razão, não podemos nos agarrar a uma escolha só, temos que experimentar de tudo, não ter medo de ser feliz e arriscar tudo o que temos para conseguir um pouquinho mais de experiência de vida!!!
=**

Murillo Teixeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Murillo Teixeira disse...

puro cintiismo!
amo!

Maiara disse...

Oi, Cíntia!

Adorei o texto! Terminei meu programa A Dieta sem Dieta - Faça Algo Diferente. Experimentar coisas novas, sair da acomodação, viver o momento é o grande barato da vida. Dá uma passadinha no meu blog, meu resultado foi muito legal.

Ah, e parabéns, menina, amo o que escreves.

Beijo, Maiara