quinta-feira, 24 de julho de 2008

Dos sonhos de Geórgia - I

Sentiu-se zonza. Se houvesse a chance de se olhar no espelho, veria a face branca, de um branco pálido, triste... cálido. Quis gritar. Não conseguiu. A claridade lhe doía os olhos, olhos que estavam vermelhos, inquietos, contrastando com a paz fúnebre da pele dolorosamente alva.


Sentiu-se frágil. Apoiou-se por um instante na poltrona vermelha, sentiu as pernas vacilarem... Ouviu um barulho, um estrondo sobre o assoalho de madeira. Era seu corpo. O corpo que não correspondia aos comandos do cérebro que desejava fazer-lhe levantar para levá-lo ao ar fresco da janela .

Sentiu-se sufocada. Mais uma vez o grito não ecoou. Sentiu uma febre percorrer-lhe os caminhos mais sinuosos do corpo. 'O que está acontecendo?', Por mais que tentasse não conseguia obter uma resposta. As paredes curvavam-se contra ela e não pareciam querer explicar-lhe a razão daquilo tudo. O cachorro que latia distante, também não parecia apto para dar sequer uma pista. Estava só.

Sentiu-se louca. A voz agora, débil, se espremia entre gemidos quentes de dor e delírios que casavam perfeitamente com aquelas pontadas que sentia atravessarem-lhe os ossos. Falou das noites com Vítor, falou do ódio por Sofia, falou dar dor de ser Geórgia. Urrou de dor. Soltou uma gargalhada.

Sentiu-se vazia. De repente não havia mais dor, não havia febre, não havia mais choro, nem o cheiro doce do sangue que enxarcava a madeira e escorria por dentre os vãos do assoalho. Nada. Exatamente nada. Nenhum som. Nenhum desejo. Nenhuma lembrança daquela noite.

Sentiu-se em paz. E mergulhou na paz fúnebre que iluminava sua face e seu corpo naquele mar de sangue sob a poltrona vermelha. Da luz que vinha da rua pela janela de madeira obteve o último lampejo de lucidez. A casa de esquina era agora um túmulo. Geórgia? Era defunta.

Um comentário:

Murillo Teixeira disse...

naoooooooooooo
vc matou ela??
e pq ninguem comenta? um puta texto desse e o povo só comenta quando vc fala de moda!!!