segunda-feira, 19 de maio de 2008

O dia em que amei um estranho...

4 de Maio de 2008


Sentou. Pediu um café. Abriu uma revista e ficou ali a bisbilhotar com os dedos o avesso da toalha de mesa. O café chegou, chegou quente e ele virou a página entre goles e 'ais' sutis que ferviam a língua.

O cachecol pendia sobre a borda do pires e acariciava a alça da porcelana fumegante. O casaco revelava uma camiseta branca que revelava um gosto discreto. Um sorriso discreto. Um olhar desinibido passeava entre mechas de cabelo que teimavam confundir-lhe a vista e confundir-me os pensamentos. Era amor.

Leu a última crônica da última página e quis soltar uma gargalhada. Segurou. Descansou os dedos e olhou para os lados. Demorou-se na minha figura apoiada na mesa do canto, eu o admirava submersa em algum torpor de paixão. Nos amamos eternamente durante os segundos em que nada víamos além do outro.

Passou as mãos pela barba por fazer. Sorriu o sorriso mais gostoso do mundo. Acenou um gesto curto como se quisesse dizer 'até mais'. Devolvi. Deixou um troco amarrotado sobre a mesa e dirigiu-se à porta, vacilou. Olhou para trás e me viu. Palavras seriam desnecessárias, seria arriscar desfazer a magia daquele amor mudo...

Nos olhamos pela última vez. Eu o amei pela última vez na contra-luz daquele Sol de inverno que invadia as janelas e a porta de madeira. Eu amei aquele cachecol e aquele jeans desbotado. E amei também um certo olhar confuso de despedida. O amor acabava ali. Nunca mais nos veríamos...

E tudo que poderia ser e não foi? Não sei. Só sei que esse foi o dia em que amei um estranho...

4 comentários:

escondidonagaveta disse...

ainn o texto mais fofo do mundo! vontade deapertar até os olhos pularem pra fora! auhauha
muito lindo memso Gê! adorei, meus parebéns!

Murillo Teixeira disse...

o dia que eu escrever um texto sobre esse assunto sendo sutil desse jeito eu posso me matar!

Murillo Teixeira disse...

ai que delicia!!! por um momento eu pensei que a gente podia fazer um filme juntos!!! juntando o que vc tem de bom e o que eu tenho ia neutralizar e ficar sem tempero. sem seu tempero suave e sem o meu escrachado, ia ficar sem sal!!! mas a gente pode tentar!!!

Mariana Viana disse...

Lindo texto!