terça-feira, 22 de abril de 2008

Nada mais que o necessário...

Abriu a porta num gesto preciso e silencioso, segurou com cuidado o chaveiro para não avisar que estava chegando. Era tarde. Muito tarde. Onde esteve a madrugada toda? Um galo cantou longe. O que diria para sua mãe? Para papai tudo bem... Ele não ligaria, era homem de farra, dava um sorriso gordo e ficava tudo entendido. A mãe não, ela a interrogaria, cheiraria roupas e cabelos, gritaria e o almoço de domingo seria uma guerra, com uma ruga de preocupação entre a mãe e ela na mesa.

O gato passou por entre suas pernas, quase tropeçou. Gato malvado, venha cá, Preto. Com o gato no colo subiu as escadas. Primeiro, segundo, pulou o terceiro degrau, rangia. Contou, esqueceu o sexto, droga, fez barulho... Preto pulou de seu colo e fugiu quando D. Alva apareceu no topo. Acendeu a luz. Senhora de si, até o chinelo de quarto tinha salto. Camisola de seda, maquiada. Quem olhasse diria que estava indo pra uma festa. Os cabelos louros, impecáveis. A voz grossa e irônica ecoou pela escada abaixo.

-Onde foi queridinha? Onde foi para voltar com esse cheiro de tudo que é podre? Esconder-se com mais um de seus amantes em um daqueles inferninhos que seu pai adora?

Aquela voz irritante fez Preto sumir pela sala. Bruna coçou os olhos, quis fingir que num ouviu. Como? Não tinha jeito! Sentiu as bochechas arderem, abaixou a cabeça. Calou um gemido que suplicaria para não haver briga. Não adiantaria. Abaixou a saia, cobriu a barriga com a bolsa, o cabelo no rosto. Quis descer um degrau. A mãe repetiu a pergunta, palavra por palavra, parecia que a tinha decorado enquanto esperava a hora de Bruna chegar. Tornou a peguntar e não obteve resposta. Bruna continuou parada, resmungando, segurando para não discutir, não naquela hora, tão tarde, estava com sono, queria dormir. Não conseguiu.

-Eu estava bem melhor que você, dona Alva... E papai também! Chegou a pouco, né? Vi quando o carro passou vindo da casa de jogos. Tinha alguém com ele no carro... Acho que não era você, mamãe!

- Você e seu pai combinam. Cúmplices.

A garota subiu uns degraus, ajeitou o decote, colocou a saia no lugar certo, jogou os cabelos.

- E você não tem ninguém, ninguém com quem combine, nenhum cúmplice. Vá dormir, vai acordar com olheiras desse jeito, queridinha mamãe!

A mãe não respondeu, continuou no topo com toda sua pose, dona da verdade, finíssima, não moveu um dedo. Bruna continuou...

-Esta cara amarga deixa um ruga em sua testa, cuidado, precisa refazer aquela plasticazinha idiota no nariz.

- Debochada feito o pai, têm o mesmo cheiro de porcaria, o mesmo jeito de alisar esses cabelos, essa postura de vagabunda... Puxou a ele!

-Ah mamãe, chega de se lamentar por ninguém ter esse seu jeito esnobe, essa cara comprida...- chegando perto da mãe, disse baixinho- Pena Thomás ter morrido, né? Era sua chance de criar um menininho metidinho a besta, com pulôver e calça social. Feliz dele que se livrou de você antes dos cinco anos.

-Não fale de seu irmão, ele era melhor que todos vocês juntos.

Bruna foi para o corredor, acendeu a luz, tirou a saia num movimento só, se livrou dos sapatos, deixou a mãe para trás. E gritou antes que a outra porta se fechasse.

-É, ele era idêntico ao coroa do banco, né? Aquele gerente bonitão...Você, hein mamãezinha, quem diria...

Bateu a porta para não ouvir os berros de sua mãe. Não precisaria, a toda senhora de si não tinha mais nada a dizer. Preto já estava no quarto enrolado no edredon vermelho.

-Você viu a cara dela, Preto?Deve estar uma fera - gargalhou alto como o pai- se mordendo de raiva...

Acendeu as velas com perfume de rosas. Apagou a luz. Sentiu falta de Thomás. Ainda podia ouvir os passos miudinhos e apressados dele pelo corredor. Abraçou Preto. A casa silenciara. Tudo quieto. Por enquanto tinha vencido. Dormiu calma, estava exausta da farra toda. Precisava descansar para renovar os argumentos à mesa do almoço...

2 comentários:

escondidonagaveta disse...

num preciso nem dizer nada neh? texto fantástico, cí. muito interessante... é uma situação extrema, claro, mas muito adaptável a tudo o que a contece conosco hoje em dia né? é bem diferente do que você escrever até agora, mas não foi menos brilhante que os outros textos! parabéns!

Murillo Teixeira disse...

o texto desce igual cerveja gelada na beira da praia embaixo de um sol de torradeira. um texto pra fazer inveja em quem também escreve!!!