terça-feira, 11 de março de 2008

O medo de se olhar no espelho...

Sempre gostei de ler, sempre. Nunca tive aquela calma dos leitores virtuosos que lêem aos poucos, se deliciando com um único capítulo de cada vez, colocando o livro no criado-mudo e passando o dia a pensar sobre o que as próximas páginas vão apresentar a ele, segurando a curiosidade até o próximo encontro. Eu não. Não consigo. Gostaria de ter essa calma, essa paciência. Não tenho. Quando gosto, vou até o fim das páginas, num embalo só, de um só tranco, meio vício mesmo.

Ultimamente andava meio afastada desse meu lado meio bruto de leitora, foi retomado hoje, com mais vigor do que nunca. O responsável? 'A casa dos budas ditosos' de João Ubaldo Ribeiro. Por quê? Porque simplesmente é o relato mais envolvente, mais excitante, mais delirante, mais sincero( ou muito bem inventado) das peripécias de uma libertina sem preconceitos e sem limites. O livro é lindo. Acho impossível que os leitores virtuosos consigam manter o fino hábito de saborear aos poucos. Se conseguirem, é porque não entenderam a obra, ou prefiriram fingir que não entenderam. Afinal, os relatos deixam qualquer cristão de bochechas rosadas, coração disparado e , para os mais fiéis, aquele sentimento de culpa por sentirem aflorar seu instintos mais primitivos.

Alguns já disseram que a obra é um absurdo, um lixo, uma péssima influência, uma vergonha. Outros, pseudo-ninfomaníacos, fizeram dela sua cartilha, o que me irrita um pouco já que o propósito da 'libertina' é exatamente a liberdade sexual, e não existe liberdade presa a manuais, isso é para os fracos. Ela não deseja promover uma suruba global, ela não quer que a luxúria seja uma obrigação, ela apenas sugere que as pessoas escapem dos valores milenares que lhes foram impostos. Fala abertamente de incesto, poligamia, da falta de limites, de sucumbir sem medo aos desejos, à curiosidade. Mas sem, jamais, mostrar que é escrava de sua sexualidade, tudo é feito por prazer, sem aquela obrigação do vício, sem o tormento da dependência, sem o medo da culpa.

Ninguém que leia essas primorosas páginas vai, de repente, abrir mão de todas as suas crenças, valores e sair distribuindo seus buracos por aí sem nenhum escrúpulo. O propósito do livro não é esse, mas também não é somente um entretenimento vazio. Através dessa leitura nos confrontamos com nós mesmos, com aquilo que fazemos-ou deixamos de fazer- porque devemos e não porque queremos. É interessante a abordagem em relação às coisas naturais que insistimos em reprimir.

Afinal, monogamia, heterossexualidade, castidade, e tantos outros tabus, são absolutamente culturais. Nada têm a ver com o seu humano na sua forma mais original. Foram regras impostas de acordo com o que convinha aos poderosos durante toda a história e que nós acabamos usando artificios pra justificar e acharmos absolutamente normal. A cultura foi colocando nossos instintos no inconsciente, não teríamos coragem, nem estômago para lidarmos com eles de frente. Nos sentiríamos sujos se sucumbíssemos conscientemente aos desejos e vontades que povoam nossa mente oculta. João Ubaldo Ribeiro conduz com maestria esse confronto entre o leitor e seu lado mais impuro, ou mais puro, na verdade. Usa do sexo para escancarar com coisas que guardamos lacradas em um cofre. Escandaliza.

O depoimento vai na carne, nas entranhas de quem lê. Pornografia pura, das mais detalhadas, bem ricas mesmo, revirando o estômago dos mais pudicos ou matando de satisfação aqueles que mandaram às favas os tabus em torno do sexo. É a poesia em uma forma anti-poética, bem crua. Poesia sem forma, sem rima, poesia em prosa, sexo em prosa, sexo em tudo. Um encontro com uma libertina e um encontro inesperado, muito inesperado, com você mesmo.



* RIBEIRO, João Ubaldo. A Casa dos Budas Ditosos. Rio de janeiro: Objetiva, 1999. 164 p.

2 comentários:

Murillo Teixeira disse...

sexo batido com livros!!! pra ser insuperável só falta colocar cinema nesse copo de liquidificador!!!

Murillo Teixeira disse...

se vc continuar escrevendo comentario daquele jeito eu vou começar a me achar!!! haehaehhha