terça-feira, 18 de março de 2008

"É chato ser cronológico..."

Faz umas duas semanas eu estava em mais um daquelas conversas bem aleatórias mesmo com um grande amigo meu (beijo Mu!!), um papo meio louco sobre sermos- ou não- cronológicos(organizado pela ordem em que as 'partes' sucederam). E depois de muita risada e teorias idiotas chegamos à conclusão que dá título a esse post.

As pessoas vivem praguejando e morrendo de medo da rotina, mas a rotina é um fato e, ainda bem, é inevitável. Imagine acordar todo santo dia sem nenhum plano, nada... Não dá. A rotina é maravilhosa, o que é insustentável é a monotonia. Mas também é impossível ter pique para fazer tudo diferente a cada segundo. Não dá pra ser performático sempre. É aí que entra o 'plano anti-cronológico': experimentar tudo de que você já está até enjoado, de um outro jeito, sem nada de muito louco, simplesmente trocando a ordem. Ok, meio idiota, né? Você que pensa...

É só analisar um pouco, tirando a ordem básica e essencial a que todos estamos fadados: viver para depois morrer, temos sempre a opção de fazer as coisas fora daquela lógica em que elas se apresentam no tempo. Pense no sexo. Sim, no ato. Isso mesmo! Agora imagine fazê-lo todas as noites e manhãs do mesmo jeito politicamente correto: 1-beijos apaixonados, 2-amassos, 3-tirar a roupa, 4-carinhos, 5-masturbação, 6-sexo oral e 7-''finalmentes''. Não há lingerie ousada, acessórios eróticos, suíte presidencial de motel que seja capaz de evitar o tédio nessa relação.

A graça em fugir da sequência natural das coisas, não está nas grandes mudanças, mas sim em aproveitar as possibilidades que as pequenas mudanças podem oferecer. Experimente fazer um 3-6-1-5-7-2-4. Ou qualquer outra sequência que der na telha. Você não precisa de mais nada além do que já tem- dois corpos e muita vontade- para curtir sensações diferentes.

Há uns sete anos li um livro do José de Alencar, um romance, bem pequeno, engraçadinho, que se chamava Cinco minutos e começava contando um pouco da história de um cara que ''não admitia ser controlado pelas oscilações de um pêndulo''. E nessa de se revoltar contra o tempo e o relógio, o moçoilo perdeu o ônibus que o levaria para a casa; cinco minutos de atraso e sua vida mudou completamente, porque foi no próximo ônibus que ele teve de pegar que o destino pregou uma peça e apresentou a mulher da vida dele. É uma ficção, mas quantas coisas novas perdem-se todos os dias porque simplesmente tudo é feito da mesma maneira sempre?

Pegar o outro ônibus, voltar por um caminho diferente, comer o doce antes do salgado, colocar o CD no modo aleatório, fazer amor sem roteiro... Roteiros são cabrestos, mas não devem ser rasgados, podem só ser bagunçados um pouquinho. Aproveitando a deixa e indo para o cinema, é fácil observar que um filme que fuja um pouco desses moldes cronológicos tem sempre opiniões divididas sobre ele, alguns acham confuso, outros acham louco, alguns gostam porque é diferente, mas sempre mexe com a crítica, pois é algo fora do comum, e uma grande maioria condicionou sua capacidade de entendimento àquilo que se apresenta de uma forma descomplicada e linear.

Lembra das aulas de História? Do jeito que está no livro didático parece que nada mais aconteceu em 1500 além do descobrimento do Brasil, que a Revolução Francesa parou a Terra e que a Guerra dos Cem Anos fez com que todos os homens do mundo passassem mais de um século vivendo em função dela. Óbvio que não, todos esses fatos estão inseridos em contextos, muitas outras coisas aconteceram ao mesmo tempo e podem estar ligadas dos mais diversos jeitos. Mas tudo é sempre apresentado tão quadradinho, em capítulos muito bem divididos e de uma forma tão desconexa que você esquece do resto, de tão isolados que esses fatos se apresentam, primando sempre pela lineariedade. Facilita o raciocínio pensar assim, mas a compreensão do todo é prejudicada, fica-se sem visão. Percebe-se claramentre que desde cedo o ser humano já é preparado para se limitar a uma organização regida pelo tempo.

Essas amarras, que já se fixaram na nossa mente, podam um pouco a liberdade no sentido de como experimentamos, sentimos e vivemos as coisas. Ficamos enfadonhos, repetitivos, monótonos; algo que não é natural, já que foi o convívio em sociedade que fez o homem criar métodos para reger sua vida e suas ações. Quando estamos entregues ao inconsciente, sonhando, por exemplo, somos livres, atemporais, tanto que temos sonhos absolutamente psicodélicos, loucos mesmo, vivemos as coisas de uma forma que parece inconcebível na nossa realidade e sentimos coisas que jamais sentiríamos acordados, por quê? Porque estamos o mais próximo da nossa natureza.

E agora sentimos a necessidade de voltar atrás e recuperar um pouco do que centenas de anos de metodologias cansativas e processos civilizatórios concretos fizeram com nosso lado abstrato, com nossa capacidade imaginativa, com nossa libido. Uma certa busca por sentimentos mais anárquicos, aquela coisa de usar os cinco sentidos ao mesmo tempo e curtir as coisas como um todo, sem ter de seguir uma ordem pré-definida. Afinal, ''é chato ser cronológico...''.

4 comentários:

escondidonagaveta disse...

Realmente, ser cronológico é muito chato. Bom mesmo a jogar tudo pro alto e viver livre, leve e solto, sem ter medo de tentar alguma coisa diferente. A monotonia irrita, entedia. É sempre bom tentar mudar para acabar com o tédio.

André L. Soares disse...

O texto está excelente: seja na qualidade da escrita, seja na temática. Reflito sobre isso há muito tempo também. E penso que já cometi, várias vezes, o erro do personagem de 'cinco minutos'. Contudo, não desisto. Tento ao máximo fugir da rotina, embora, como você disse, não dá pra fugir todo dia. Quanto à escravidão cronológica, livrei-me dela simplesmente deixando de usar relógio. Apenas isso já foi um grande adianto. Claro que existem outros relógios além do meu, e gente chata pra lembrar os compromissos. Mas sempre é possível ser um 'tiquinho' mais livre (ou ao menos pensar que é). Óbvio que, essa de desprezar o relógio, já me custou caro algumas vezes: alguns clientes irritados que não voltam mais; entre outros pequenos prejuízos. Mas é assim mesmo.

Parabéns pelo texto e pelo blog! Um abraço!

disse...

ah, eu tentei o 7-3 mas foi fisicamente impossível :D
Mas o texto é bacana, eu costumo dizer coisas assim pros meus amigo,mas tratado de liberade. :) beijoo do infiel leitor

Anônimo disse...

Conheci agora o seu blog e gostei muito de seu texto. Estou neste momento tentando sair da acomodação, que é o que não nos deixa tentar as mudanças.

Estou lendo 'A Dieta sem Dieta", já conhece?
Experimente dar uma olhada. Fala exatamente sobre isso!
Abraços!