terça-feira, 14 de dezembro de 2010

=]

agora a gente mora -> aqui <-

sábado, 4 de dezembro de 2010

já é verão?

seu suco de morango no meu short branco

as cinzas do meu cigarro no rasgo do teu jeans.
me vinguei

e você sorriu de volta

Cinza-qualquer-coisa

Então, eu coloquei meu velho moletom, aquele que você não conheceu, o meu preferido, porque bem no dia em que eu te esperava com ele, você não foi mais. Até foi. Depois. Outros dias. Mas nunca mais dividimos a minha cama. Nunca mais a intimidade das roupas velhas ou do encontrar de corpos nus durante a noite. Gostava quando tinha você embaixo do cobertor comigo ou quando tinha a gente morrendo de calor e evitando os lençóis. Enfim...

Coloquei meu velho moletom, liguei a vitrola e... A nossa música. Rituais da saudade. De quem leva um pé na bunda, não se livra do amor, nem das lembranças. E sente que às vezes é preciso deixar o pensamento tomar o rumo que procura há dias depois de tanto disfarçar que não pensa mais. Fui lá viver nós dois na memória. Você sendo apresentado ao sofá da sala às cinco da manhã. Rindo da minha calça rosa, que, vai, não tem nada a ver comigo mesmo. E tantas outras coisas que vivemos no meu apartamento, embora tenha sido no seu que a gente passou a maior parte desse nosso amor de inverno.

O velho moletom não esquenta tanto. Velho, né? E dá saudade do abraço, porque seu abraço esquentava. Queimava. E eu cabia nele e me encaixava de tal modo que parecia ter sido feito pra mim. Quantas vezes te disse isso... Bem mais do que disse 'eu te amo'. Deveria ter dito mais. Deveria ter dito antes. Eu já senti que era amor tão de cara. Aí sobrou dizer eu te amo por aí, para as paredes, para as cartas que não foram entregues, para as preces que olha só, eu tão descrente, dei de fazer.

E fiquei ali, remoendo as coisas não ditas, as que foram ditas demais, as que nem deveriam ter sido mencionadas, as que eu queria continuar dizendo. Remoendo que, apesar de me gostar tanto naquele moletom - não porque fico bonita, afinal ele é velho e meio feio, mas porque fico muito eu mesma e mais manhosa que o normal - você nunca vai me ver assim. Então, bem, era hora de desligar a música que já repetia há muito, parar de pensar e fugir mais um pouco. De você e de mim.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

here comes the sun

e daí,
se eu nem dormi?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

La même merde

dia errado
que começa assim
nublado

e vai ficando úmido

chovendo
como se fosse segunda

me fazendo odiar
como naquele sábado

revirando as entranhas

remoendo saudades

com cheiro
de cigarro
com gosto
de fumaça

sem guarda-chuva
no meio da rua

deixaria de amar você
se pudesse

amaldiçoaria Deus
se ele existisse

terça-feira, 23 de novembro de 2010

angústia

deito
levanto

deito
levanto

deito levanto

e

pra amanhecer

falta tanto

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Extravio

Esquecidas em algum canto. Não mais minhas. Nem suas. De ninguém. Ficaram assim... Perdidas. Eu, perdida. Essa minha mania de não registrar cartas. Para onde foram? Para onde foi? Confirmei o CEP. Estava certo. Estava tudo tão certo. Mas elas não chegaram. Ou talvez tenham ficado perdidas entre a mudança da mesa para a nova caixinha de correspondência. A merda da nova caixinha de correspondência. Ou talvez eu nunca as tenha escrito. Talvez elas nunca tenham existido. Porque elas não são mais minhas quando as dou pra você. E se você não as recebe... Não existem. Porque as palavras existem quando são lidas. Relidas. Sentidas. Quando existem para alguém. Para mim elas não existem. Para você elas não existem. Morreram. Morreu. Morremos. Pra que? Merda, pra que? Tanto. E depois tão pouco. Sobrando versos, declarações, histórias. No papel. No lixo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Musa

De saia rodada no vento. De branco sob a chuva. Vagabunda. Devaneio de poeta pornográfico. Os olhos pintados. Gatinho. O batom vermelho. O decote. Biscate démodé. Poeta sofre. Musa sádica. Descendo a rua. Como se fosse dela. Pisca e sorri. Para o desespero dos versos. Brancos. A alcinha inquieta. Frenética. Contornos indecifráveis. Um último decassílabo chorado. O fim do soneto. Poeta na sarjeta. Bêbado. Vagabundo. Ela desfilando. A bunda. Rebolando. O corpo. Jogando os cabelos. Deixando o cheiro. Arranhando as costas. Deixando as marcas. Ressuscitando o poeta. Com os olhos. Matando o poeta. Com o gosto. Pobre homem. Vítima dessa inspiração maligna. Rima abstrata. De cara no concreto. Uivando às minguas. Às margens da crônica mal escrita.

sábado, 23 de outubro de 2010

"Agora era fatal..."

- Vou colocar um Chico, pode?
- Pode, mas cuidado com o que você vai por...
- João e Maria, pode?
- Pode. Não pode... Ah! Eu vou fumar um cigarro...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Três e quinze ou sete e meia

Você me abraça. Naquele gesto cuidadoso de quem envolve e sente. Suas mãos no meio das minhas costas. As minhas te puxando pra mais perto. A gente se olha e sorri. Porque é inevitável quando te olhos nos olhos. E você me aperta mais forte e com ainda mais carinho. Volto para aquele cantinho que é tão meu quanto teu cheiro. E fico. E assim a gente recomeça. Do jeito que começou. Sem dizer nenhuma palavra. Bastando estar.

sábado, 16 de outubro de 2010

1974

Ela continuou pintando, ele fotografando. Ela em todas as cores. Ele em contrastes que se desmanchavam nas nuances do cinza. Amadores. Amantes de suas artes erradas e tortas. Amantes. Iam sobrepondo suas obras pelas paredes do pequeno apartamento numa travessa qualquer. Quarto-sala. "Mas tinha uma varanda. E daquela varanda a gente via tudo. E ouvia Elvis." Os amigos eram poucos. Os dela sumiram. Os dele não aprovavam. Alguns poucos os freqüentavam e estava bom assim. Ela fazia bolinhos “com gosto de coisa mais gostosa do mundo”, tomavam cerveja, alguns fumavam, mas todos sorriam. A felicidade morava ali, entre rabiscos e enquadramentos estranhos.

sábado, 9 de outubro de 2010

Hmmmm...

Quando você quer... Pode?
Quando eu quero... Não pode?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Amor novo

Vem cá que eu preciso te contar que ando sentindo essas coisas que a gente lê em poesia. Ando falando de amor pela rua, cantando na cozinha e assobiando no chuveiro. Ando entregue. Ando andando meio sem rumo, e quando vejo tou na porta da tua casa.

Ando sem pressa porque teu amor chega tarde, sempre depois das onze. Ando sentindo coisas demais. E me ocupando de coisas de menos, que tu anda me consumindo os pensamentos e eu fico sem fazer mais nada.

Ando achando graça em música brega e tou gostando mais de São Paulo. Tem mais poesia até no caminho do ônibus, quando o celular toca e você reclama a saudade. Adoro quando você reclama a saudade. Com aquela voz morna de quem quer mas não pode.

Ando tropeçando nos sorrisos e nos soluços. Que chorar de amor, é parte desse negócio de ser feliz a dois. E a gente é feliz feito dois bobos. Como se o mundo lá fora andasse calmo e sereno e a Paulista parasse inteira só porque a gente esquece de olhar pros dois lados.

A gente é feliz pra caralho. Sem medida assim... Porque medida é racional. É multiplicar, dividir... E num tamo podendo fazer conta. Vem cá, que tou precisando te dizer sobre tudo isso. Porque se eu num falo, nem eu acredito.

Ando escrevendo essas coisas todas melosas, ando gargalhando a toa. E tenho rasgado folha de caderno porque escrevo demais e fico repetindo. Quando vejo, tou contando a mesma história. É que nossa história, puta que pariu, dava um livro.

Ando assim... Colocando minha felicidade nos teus braços, ali onde encaixo a cabeça e fico deixando teu cheiro pegar na minha roupa. Ando achando tudo mais bonito. E ando errando feio. Mas errar é parte dessa coisa. Isso de andar amando.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Uma mentira e uma verdade

Você foi embora mais uma vez. Mais uma vez você de costas para mim até sua figura sumir no ângulo reto da esquina...

- Foi viajar. E espero que volte logo...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Só quatro anos...

Subiu a escada silenciosamente, não queria que eu a percebesse. Como se eu já não tivesse ouvido seus gritinhos pelo quintal... Passo miudinho, um chapéu três vezes maior que a cabeça e uma boneca de pano arrastando no chão.

E por mais que eu soubesse que ela estava chegando, fui surpreendida quando num pulo só veio parar no meu pescoço. Agarrou-se e pediu para que eu girasse muito rápido. Girei. Até caírmos zonzas no chão de tanto rodar.

Caímos e ela continuava ali, firme e forte quase me sufocando com tanto abraço. Quando perguntei o motivo de tanto carinho e tanto aperto ela não exitou e disse que era saudade. Saudade. Ela tem quatro anos e entende de saudade. Tanto entende que sabe como matar esse sentimento que vai deixando a gente meio melancólico conforme cresce a falta.

Parava. Olhava. E dá-lhe mais abraço. E ficou ali por tanto tempo que eu nem cabia em mim de tanta alegria. Sabida essa pequena! Quando cansou do abraço pediu 'cheirin'. O tal do carinho com a ponta do nariz que ela tanto ri quando eu faço.

Mais uma vez abraçou. E quando já era de ir embora, sorriu meio tristinha. Ela também já aprendeu que a saudade aperta quando ainda nem tem ausência, mas se sabe que vai ter.

E hoje quando o telefone tocou, era ela. Falou uns cinco minutos sem que eu conseguisse entender nada. Lembro de ter ouvido algo sobre a escolinha, o aniversário do irmão, uma comida qualquer que experimentou na casa de não sei quem. Palavras soltas. Fez silêncio. E falou de saudade. Que não gostava de telefone porque não dava pra sentir o 'cheirin'... Pediu para que eu voltasse...

Aprendeu cedo, muito cedo... Aprendeu o que é saudade, o que é matar a saudade e o que é tentar enganar a saudade e descobrir que não adianta, ela vai continuar ali. Quatro anos e já entendeu da vida coisas que até hoje nem eu entendo bem e que muitas pessoas nunca vão entender...

Brigada Duda, brigada mesmo!

sábado, 18 de setembro de 2010

DUAS E QUARENTA

O telefone não toca. Não toca. Nem um toquinho. Fico me certificando de que tá funcionando e depois me arrependo porque talvez ele fosse tocar naquele exato instante. Merda de insonia. Merda de tefone. Liga logo, porra.

Amor

22 anos. Carente. Branquela. Ri alto. Não é delicada. Não canta bem. Não fala 1457 idiomas. Não tem um talento específico. E tem 1457 frustrações por conta dessa falta de dom. 22 anos. Gosta de rock, de músicas velhas e de caras mais velhos. Não ganha o suficiente para se sustentar e é viciada em vestidos. Viciada em cigarros importados. Gasta mais do que ganha.

Usa óculos. Cabelo nem lá, nem cá. Alta demais. Fala palavrão demais. Não saiu do Brasil. Não tirou lindas fotos e nem aprendeu a se virar sozinha. Se envolveu com gente idiota. Chora mais do que deve. Sensível pra caralho e dependente. Não cumpriu mais da metade das promessas. E não liga pra isso. Embora ache que isso conta em relação ao seu caráter. Parou de prometer as coisas. Mas vive querendo que as pessoas prometam coisas para ela. E espera que elas cumpram.

Some do nada quando se sente ameaçada e se porta, na maior parte do tempo, como se tivesse 7 anos. As vezes passa cinco minutos na porta da faculdade esperando o pai ir buscá-la, mas isso era no tempo da escola. Mas ela ainda espera. Come mais do que tem fome. É ansiosa e rasga 90% do que escreve.

Não tem nada que impressione. Nem um sorriso colgate. Não consegue levantar uma sobrancelha só. Não tem os lábios da Jolie e nem furinhos nas costas. O nariz, não sabe. O queixo, qualquer coisa. Ombros largos demais para uma moça. Reclama. Muito.

Tem nada de muito bonito pra oferecer. Mas está putamente apaixonada. E se eu fosse você, cara, ficava com ela.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Folhas laranjas VI

Mais uma vez o telefone tocou
E ela sabia quem era
Porque ele tinha dado sinais que voltaria
Tinha dito nas entrelinhas que era hora de voltar

Ela sabia que não demoraria pra que ele se fosse novamente
Mas o deixou entrar, mais uma vez abriu a porta
Daqui a pouco as ligações cessam novamente
Cíclico
E daqui a mais um pouco elas recomeçarão

E ela sempre vai atender
Responder
Corresponder
E é melhor não tentar explicar...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

3:15

Antes que fosse falar de amor...

Desliguei.

Porque era cedo. Precipitado.

Porque era... De fato, amor.

Mas ainda não era... A hora.

Poesia pela metade

Palavra sem rumo

Tristeza inspira
Tristeza dói

Ferida em versos

Em rimas tolas
Em coisas que se perdem

Porque simplesmente não cabem

terça-feira, 7 de setembro de 2010

To whom it may concern...

Ahhh! E a incrível sintonia de nós dois... dá uma trégua! Balde de água fria! Onomatopéia de tombo! Eu me rasgando de saudade. Você quase dormindo... Eu cantando aquela velha canção. Você se esticando sob os lençóis... Não os meus. Nem os seus. Estranhos. E torço de leve, com a maldade que me permite o mais doce dos vilões que você perca o sono. Não a noite inteira. Por alguns minutos. Mas que eles pareçam muitos. E que nesses minutos eu apareça. Lembrança gostosa de ontem à noite. Quando você me fez perder o fôlego. E que você perca o fôlego também. E sinta o que eu sinto agora. Nesses segundos que não passam. Que se arrastam como se quisessem torturar. Ecoando nós dois pelas paredes. Tá faltando o tato. Tá sobrando pensamento. Não-fotos espalhadas pelo quarto. Memória do que não se pega. Sente. Falta você no espaço. Sobra eu no tempo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

14 ou 15 anos

Faculdade e colégio. No intervalo todo mundo se encontra. A praça de alimentação lota. Os pombos matando por uma casquinha de croissant, uma autêntica casquinha Benjamin Abraão, veja lá, não é qualquer casquinha. Croissant aos pombos!


Pombos à parte (embora eles continuem disputando migalhas sob minha cadeira), me ponho a observar. Tem tudo que é tipo ali. Os meninos Justin Bieber, os meninos que odeiam e fazem questão de parecer o oposto e os que tão cagando pra isso aí. As meninas feias, as bonitas, as que gostam dos meninos Juntin Bieber, aquelas que transformam o uniforme em roupa de balada e ficam paquerando pessoal da faculdade quando ainda elas nem sairam da sétima e as meninas que não estão nem aí.

Tem também os casais. Emos. Burgueses assumidos. Burgueses aternativos. Burgueses. Tipos estranhos. E tem aqueles que discutem a relação no intervalo. No recreio - melhor assim. Recreio, minha gente, recreio! Recreio é pra comer, pra falar bobagem, mal de professor, da vida e da prova do dia seguinte. Discutir a relação é dose.

Mas lá estavam eles, encostados na lixeira em frente ao Benja (depois de quatro anos, você cria intimidade com o tio do pão). Clássico. Ela meio aos prantos. Tão linda. Branquinha. Cabelo preto. Mãos fiiinas. Eu sempre reparo em mãos. Ele meio exibido, orgulhoso do choro de sua pequena 'amada', olhando para todos os lados para se certificar de que seus amigos estavam acompanhando. Alguém chorando por você, quando você ainda usa uniforme de colégio... Pô, motivo de orgulho.

Mas ela chorava engraçado, sorrindo. Tão nova e cheia das manhas, fiquei observando, ouvindo a conversa. Cara de pau. Dava pra ouvir. Ela tava era fazendo charme. Pedindo atenção. Queria comover aquele pivete mauricinho. Quando somos mais novas, ahhh meus amigos, a gente chora por qualquer Zé Bunda... Choro meio fingido, então... Vai que vai...

E embora eu já estivesse satisfeita com o que observava. Precipitei-me em achar que aquilo era o ápice da conversa. Aquele 'você não gosta de mim', 'claro que gosto', 'então me beija... não não me beija'. Para minha surpresa eis que a moçoila solta, assim, com vontade mesmo o tal do 'eu te amo'. Nessa hora até o pombo desencanou do croissant e eu desencanei da vida.

Eu te amo. Eu te amo... Aquela ceninha de recreio podia ter tudo menos amor. No máximo falta de amor próprio. Aquele eu te amo de quem não ama, só quer chamar atenção. E amor lá é pra chamar atenção? Amor é a dois. Intimidade. 'Coisa nossa', eu diria. O amor não estava ali. Não naquela menina querendo chamar atenção do seu namoradinho. Muito menos no namoradinho que olhava pra bunda de sua coleguinha de sala.

Um tapa na cara, na minha cara. Incoformada comentei com os amigos. Eles disseram que é normal, acontece. Não acontece. Ali não aconteceu nada. Ali simplesmente falou-se. Como quem joga uma casquinha aos pombos, ela soltou a célebre frase. Como um pombo faminto, ele agarrou a casquinha, digo, a moça. Meu amigo veio me dizer que eu te amo nessa idade, não é eu te amo de amor, é eu te amo de 'já está na hora de transar com vc'. Sábias palavras.

E segurando a mocinha pela cintura, lá se foi o garoto de peito estufado esticando o olho para a bunda da coleguinha, como um pombo que devora uma casquinha de pão de francês mas já pensa na casquinha de croissant. E veja bem, um croissant do Benja, um senhor quitute. Croissant aos pombos!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Desconstrução

Sentou no banco improvisado da pracinha como se fosse sofá. Esparramou-se como se fosse gordo e arrotou como se não tivesse fome. Não tinha mulher para amar, nem filho para beijar. Vivia naquelas ruas como se fossem dele. Como se dele fosse sua própria vida.

Aos passantes, sorria. Como se tivesse dentes. E oferecia abraços. Como se fosse íntimo. E pedia comida, como num restaurante. Trajava trapos como se fosse elegante. E recitava Byron como se fosse poeta. Como se fosse ator. Era ator. Caminhava pela rua como se fosse palco. Agradecia aos pedestres como se fossem platéia. Dirigia sua peça, como se fosse um sucesso. Em caixas de papelão como se fossem camarim.

Encenava como se estivesse ébrio. Atravessava a rua como se desfilasse, flutuando como se fosse pássaro. Caia como se não fosse óbvio. E gargalhava. Como se estivesse feliz. Talvez estivesse. Como se fosse possível. Fazia da feira sua festa e beliscava frutas e pastéis como se fossem bundas. E elogiava bundas como se fossem comida. E se permitia homem como se fosse amado.

Levantava às seis como se fosse trabalhar. Sentava na padaria como se fosse pedir café. E deitava no balcão como se fosse cama. E reclamava da vida como se fossem ouvir. E pedia conselhos como se fossem dar. Despia-se como se tomasse banho. Era expulso como se fosse bandido. Xingava como se tivesse razão. Era xingado como se estivessem certos.

Gritava por socorro como se quisesse. Fazia-se de coitado como se fosse. E choramingava como se estivesse triste. Falava de sua mãe como se a amasse. Falava do governo como se fosse oposição. E declamava Chico como se fosse amigo. Como se na poesia da canção encontrasse motivo. Como se precisasse de motivo pra continuar.

Não calava-se com a boca de feijão. Não havia feijão. Não calava-se. Não me falou de nome. Disse que não tinha. E não deveria ter. E se nome não tinha, quem dirá rumo. Olhou-me daquela vez como se fosse a última.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bom dia

Sabe, das coisas mais bonitas que você me disse, de todas as declarações de amor, de todas as cartas, incontáveis cartas, doces cartas, de tudo que você me disse olhando nos meus olhos, o que eu mais gostava de ouvir era o 'bom dia'.

Porque é simples, porque era espontâneo e você ainda tinha a voz meio arrastada de sono. Geralmente você estava pelo quarto tentando se desvencilhar do lençol e correndo para o banheiro com a toalha na mão. Sempre atrasado. Mas entre o relógio despertando pela quinta vez e a urgência da barba por fazer, você parava, sorria e me desejava bom dia. Ô se era bom. Excelente. E mais uma vez eu me apaixonava.

Gostava também quando era domingo. Sem pressa. E você me acordava com aquele bom dia sussurrado. Seu romantismo nunca foi aquele romantismo de filme, com direito a rosas pelo quarto ou café na cama. Que bom. A gente não gostava disso. Mas o bom dia sussurradinho, huuuum. Como quem implora para não parar de amar antes das três da tarde, você ia esticando o braço e me envolvia e eu ainda com o corpo molinho de sono ia me deixando por sua conta. Pra sempre a cada manhã.

A gente se acostumou com o bom dia apertado da minha cama de solteiro. O bom dia cansado da noite anterior. O bom dia que se prometia boa noite, porque logo mais a gente ia ficar junto de novo e de novo e de novo. Sinto falta de tanta coisa. Mas a lembrança do bom dia é que dói. Dói quando não tem sua você ocupando três quartos do meu travesseiro às oito da manhã, nem o beijo apressado na porta do 102.

De todas as promessas e juras de amor eterno, o seu bom dia valeu mais. Porque era o mais sincero, era íntimo, era só de nós dois até quando era com as meninas se arrumando pra faculdade. Era você me prometendo, feito gente grande a uma criança, que tudo ia dar certo. E eu, criança, acreditava. E dava. E se não desse, você tava comigo. E estaria na manhã seguinte. E a certeza de que seria assim pelo resto de nossas vidas fazia do meu dia, sempre o melhor dia. Felicidade plena.

Se eu ligar qualquer manhã dessas, perdoa. É esse costume de ser feliz que não me larga.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

As soon as possible

Querido amigo,

Gosto mais de 'beijo' do que de 'beijos', acho mais pessoal, mais íntimo. Gosto quando estica o 'o' e vira 'beijooooo' ou o 'e' e vira 'beeeeeeeijo' daqueles demorados e barulhentos. Gosto quando mando um e a pessoa responde 'outros... muitos', na verdade sou sempre eu quem respondo assim, porque se eu 'outros... muitos', eu realmente quero dar vários. Grande beijo, beijo enorme. Delícia.

Telefone. Do telefone pro e-mail, e-mail pro mensageiro instantâneo e aí vai diluindo a formalidade. 25 e-mails por dia não dá pra caprichar na despedida sempre, né? Dilui a formalidade e o carinho. O que era 'abraço', vira 'abs' um abracinho rápido, um tocar de ombros, nem toca, sem intimidade. O 'beeeeijo' vira um bê-jota sem graça de dar dó. Não quer me beijar não bê-jote-me, acho indigno.

Quem manda um beijo (pelo menos eu quando mando) deveria desejar que o outro se sentisse beijado. Era assim antes. Hoje em dia, cadê o carinho? Todos compreendem. Eu reluto. Mas há certa reciprocidade nisso você me 'abs', eu te bê-joto e virou um código. Ninguém está falando de rejeição e de descaso (é o que me dizem, mas eu continuo achando que é rejeição das bravas) é só um jeito de fechar a conversa. Como um ponto final, beeem final mesmo... Um carinhozinho ao léu.

E eu lá gosto de carinhosinho ao léu? Eu gosto de beijo com gosto, abraço com cheiro. Imploro aos infantes que estão estreando nessa vida cibernética louca virtual-real: não deixem morrer o carinho (feito o poeta implorando para não deixarem morrer o samba). Não se tratem com abreviações do que nunca deve ser abreviado. Se não querem mandar, não abreviem, simplesmente não mandem. Não obrigo ninguém a me enviar carinhos virtuais. Mas se vai enviá-los, faça de modo completo, inteiro, como devem ser os bons beijos e abraços. Sejam eles entre amigos, amantes ou namorados. Se não temos intimidade para tanto, despeça-se com um até logo, isso, é claro, se realmente formos nos ver em breve.

Precisa de mais formalidade? Temos infinitos dicionários que nos trazem 'cordialmente' e 'atenciosamente' para todos os gostos. Mas as palavras estão esvaziadas de sentido. Ninguém dá muita atenção a ninguém, no máximo um 'att' descuidado 'asap'. Que abrevia, estrangeiriza e apressa. Uma facada na última flor do Lácio e no carinho das despedidas derramadas e carinhosas. Falta de tempo. Excesso de carência.

Beijo enorme
(e sem pressa)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Folhas Laranjas III - Simples assim

Lá estava ela, se pondo a escrever sobre aquele friozinho na barriga que sentia. Toca o celular. Aqueles zilhões de números na tela. Era ele. Mas nem precisava ver. Tinham essa coisa engraçada. Essa troca de pensamentos, de desejarem o contato mesmo tão longe sempre na mesma hora. Já sabia como chamá-lo mesmo quando não fazia ideia sequer de onde ele estava. Era só pensar. E não conseguia parar de pensar que em breve ele atravessaria o oceano para estar com ela.

Das cartas de amor...

Poucos gestos são mais bonitos. Tem um quê de amor antigo nas palavras derramadas do coração ao papel. Vai caindo letrinha por letrinha dos olhos em lágrimas, cheios de sentimento e cheios de dor. Carta bonita é carta de amor doído. De saudade, então. Morro quando leio.

Carta de amor saudoso. Aquela falta mansa. Peito dilacerado, mão tremendo. Uma palavra enrosca na outra, a rima ocasional, a aliteração descuidada, o desespero do parágrafo de 20 linhas. Respira. Não dá. Soluço e o amor doendo, doendo feito facada no tendão, dor do caralho. Tentando traduzir em verbete o que nem sabe que sente. E a saudade aperta. Coloca um pouco do si no envelope, há de ter envelope, carta bonita tem envelope, e o papel onde se põe as moléstias da alma não pode ser pautado. Sem linhas. Que dor de amor não é linear. E fica bonita assim, a letra sofrendo junto, deslizando desesperada. E se carrega um cheirinho, perfeição.

Podem falar de flores, cartões, jóias, pedidos de casamento, email inesperado, telefonema às três da manhã, carinho onde bem a gente gosta, sussurro gostoso no pé do pescoço e arzinho quente que molha. Tudo muito lindo, mas fica mais lindo quando vira lembrança em carta. Ah! Aquele amor choroso, pedindo pra gente voltar, pedindo pra ficar junto, amanhecer contando estrelas num telhado vagabundo. Ou pedir pra ir embora, como quem pede se contradizendo... É de fazer chorar.

Não vale passar a limpo. Coisa de primeira, escreve uma linha e rabisca e é charme. Descobrir o que há por baixo do ninho de vai-e-vem do nanquim. Às vezes só escreveu errado, às vezes não era pra dizer. Deixa ficar. Deixa estar. O sentimento se entende no silêncio daquele intervalo ininteligivel. Segundo de reflexão. Pausa pra pegar mais fôlego. Mais uma chuva de declarações em prosa. Rabisco. Pausa. Nesse ad infinitum literal, é vírgula, porque no fervor da escrita, não cabe pensar muito bem os pontos e quem escreve não quer ponto, talvez três pontos e por aí vai.

Coloca o endereço meio em dúvida, será que ainda mora lá? Tem mais graça quando é amor de longe. Mais de 500km pra fazer valer. O papel meio surrado de tanto ser revirado e relido, a marca fragilizada da dobra, puindo as bordas, meu deus, que sofrimento sem tamanho. Bota o selo, recusa a cola, vai um pouco mais de amor, um pouco mais do amor que sente quem escreve. E quem escreve se entrega. E não há entrega mais bonita que a da carta, carta de dor. Já dizia o escritor, 'quem não escreve, não sente'.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Grandessíssimo Filho da Puta

É isso que você é! Porque eu quero, e porque é, de fato! Um Grandessíssimo Filho da Puta, assim, com as iniciais em maiúsculas que é pra guardar algum respeito a essa figura mítica da desastrosa vida amorosa, com rima e tudo que é pra ficar dramático.

Drama aliás, é você na minha vida. Quando tudo tá bem, lá vem o Grande (abreviação de grandessíssimo porque se fosse pequeno não valia o comentário, nem o post) e fode com tudo, e fode mesmo, no sentido mais literal. Porque só o que faltava era vir tocar o terror na minha existência pacífica e sair da moita como se não tivesse que deixar os vestígios do teu cheiro pelo meu corpo. Maldito. E que cheiro. Cheiro de macho. Porque homem às vezes não basta, é pouco, tem que ser macho.

Miserável indecência de amor. Tão mais fácil nos primeiros anos dessa vida lidar com esse sentimentozinho de quinta. Coisa de família, alguns amiguinhos e um pegar na mão do meninote lá no parque. O amor era isso. E era bom, porque dava conta. Não tinha tesão. Não tinha desespero. Não tinha carência que, pior que bêbado, faz a gente maltratar o celular. Criando e apagando mensagens. À beira do SEND e da loucura.

Puta que pariu esse Grandessíssimo, tu num sabia o que fazias quando deu a luz. Ou tava de gozação com a minha cara mermo. Puta que pariu, tu criou um monstro. Deu a ele todo o carinho que mulher nenhuma jamais poderá dar, porque mãe, por mais puta que seja, é mãe e ponto. Forjou o molecote nas molezas desse cuidado onipresente, fê-lo acreditar que era o melhor e maior, fê-lo acreditar que podia tudo. Pronto. E comigo podia mesmo. Que eu deixava. Vira e revira. Maltrata e diz que ama. Diz que ama mesmo de mentirinha, porque mentirinha de não-amor é bom de ouvir lá dentro do ouvido quando o Sol ainda tá brincando de esconde-esconde e a gente sabe que aquilo ali é o que tem pra hoje.

O que tem pra hoje é bem menos que ontem, porque o Grandessíssimo cultiva o hábito de sumir aos poucos. Primeiro aparece sempre. Diz que não vive sem. Depois começa a faltar. Dois dias que num liga. Três. A primeira semana sem aparecer a gente nunca esquece. E dói. Dói porque é grande o Grande e a falta. E a gente chora inventando desculpas. Depois finge que entende. "Tipo estranho". "Diferente". "Precisa de espaço". A gente quase acredita. Aí um dia resolve aceitar: ele é Filho da Puta mesmo e num muda. Por você, nem por ninguém. Talvez um dia, mas não guarde essa esperança, porque será por outra.

Eu deveria chorar, mas perdeu a graça. Perdeu a graça aquela ceninha mimosa de apertar o travesseiro, querendo engolir a dor, toda mocinha passando a noite em claro. Perdeu a graça a poesia desencontrada do frio na barriga e do verbete que teima em não existir. Perdeu a graça a ansiedade gostosa do telefone que cisma em não tocar. E não toca. Perdeu a graça o café na quase-madrugada, presságio da noite vagabunda, eufemismo pra querer comer. Perdeu a graça você, com todo esse seu charme, maldito charme. Quanto charme. Só de lembrar, derreto. Mas derreter, veja só, também perdeu a graça. Perdeu a graça também o gozo solitário que te dedicava nas noites em que te queria e você não estava ou não era (mais um parágrafo desses e eu te peço em casamento).

Todos os xingamentos dicionarizados ou não, não dariam conta de te dizer tudo que mereces ouvir, ou ler, no caso. Não é coisa de mulher mal comida ou mal amada. Que de boas trepadas e bons amores eu não abro mão. É coisa desse momento. Dessa insônia amaldiçoada, que me deixa um word em branco, palavras entaladas na garganta, falta de concordância e uma saudade que aperta com a mesma força que eu te apertava inteiro. E te deixava marcas. E era bom, mas acabou. Ou não, que se você me liga todo manso, eu vou. Não porque sou burra. Burra seria se não fosse...

Grandessíssima Filha da Puta também sou. Com todo respeito à minha mãe, que essa mãe que a gente xinga é a mãe da rua. Todo mundo tem duas. Sou porque vou, é só chamar. E também te faço sofrer e não ligo. E você grita entre goles de rum que me precisa. Grita com a mesma paixão do eu te amo de mentirinha. Amor de drama, de fachada e é assim que é bom. Amor de verdade não é pra você, nem pra mim. Estamos fadados a solidão dos amores vagabundos, esse amores de boemia, de sertanejo ruim e de samba sacana. Macunaímicos. Porque amar, de verdade, dá preguiça. E tudo que você me dá é vontade.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Carta para o meu pai

Gode,

Pois é, essa semana foi seu aniversário, dia 14, e eu que sempre estive aí para dividir o pudim de laranja e roubar um pedaço de rocambole de doce de leite ainda quente, só consegui te ligar de noite. Na verdade foi quando eu tive coragem, porque simplesmente não conseguia encarar que não estaria aí para te dar os parabéns e te puxar as orelhas e dizer mais de mil vezes o quanto eu te amo.

Não preciso de pretexto como datas especiais para ficar tagarelando isso nas suas orelhas, mas aniversário é aniversário e eu queria te abraçar. Foi quando eu tive certeza de que não daria tempo e não teria como que eu decidi que teria de me portar como uma pessoa decente e deixar minha manha de lado... Liguei, engasgada... Todo mundo que sempre estave lá, estava mais uma vez, faltou eu. Droga!

Disse tudo que tinha pra dizer, que te amava, que tinha acabado de ganhar meu primeiro salário e você riu feliz, aquela risadinha imitando riso de criança. Porque a gente tem esse costume, de falar como se fosse criança. Dignidade é isso: um marmanjo bigodudo e um mulherão de 1,75 falando feito dois bebês. Gosto assim, pai. Gosto da gente exatamente assim.

Foi a primeira vez que me senti gente grande de verdade. Eu não estava na festa de família porque estava trabalhando e não podia sair mais cedo. Não podia pegar o primeiro ônibus para São Roque, não podia porque agora eu tinha responsabilidades. Pai, justo eu que sempre tive síndrome de Peter Pan e queria ser eternamente sua pequena, eternamente criança. Pois é, cresci. Mas eu ainda sinto como quando tinha 4 anos e cabia direitinho no seu abraço. Porque o seu abraço é dos que eu mais gosto, pai.

Pizza portuguesa, verdão, desenho animado, ovo cozido, a paixão pelo sofá azul, tanta coisa que eu gosto e que eu sei que é coisa sua. Fico feliz quando me reconheço em você. Em gestos, palavras, gostos ou qualquer coisa que me faça mais ainda tua filha. A preguiça eu não sei de quem veio, nem você, nem mamãe são dados ao ócio, mas tudo bem, isso rende boas piadas e no fim, eu sei que vou superar esse defeito. Um dia, quando a preguiça passar...

Sabe, gode, agora é sexta à noite e amanhã tou aí pra te dar o abraço e pagar a pizza que prometi com o primeiro salário.... Pizza portuguesa, óbvio... E um pouco antes a gente vai assistir juntos pica-pau e vamo comer pão de queijo e talvez eu roube um pedaço do rocambole ainda quente (que mamãe prometeu fazer outro) e a gente vai sentar na mesa e você vai ficar fazendo piadas pra provocar a D. Cida e eu vou dar risada até doer a barriga!

Obrigada, pai. Por tudo. Por cada chazinho nas manhãs frias, por cada vez que você deixou o chuveiro ligado antes de me acordar só pra deixar o banheiro mais quentinho. Por cada rock and roll que a gente ouviu junto e por cada música brega que a gente cantarolou. Por amar meus ovos mexidos. Por me ensinar que sabedoria, das boas, vem da vida. E por ter a delicadeza de toda sexta-feira comprar uvas pra mim, as minhas preferidas, do jeitinho que eu gosto. E que ficam me esperando geladinhas, só minhas, porque esse é o seu jeito de dizer que por mais que eu tenha virado um projeto de gente grande, eu vou ser sempre a garotinha do papai.

Da tua maior fã,
Gode

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Despoesias VI

As coisas mais especiais devem continuar assim. Extraordinárias. Fora da ordem. Inatingíveis pela mesmice da rotina, intangíveis pelas incertezas e dúvidas. Deixemos então, que elas continuem como são, especiais.

Porque dessa vez, isso basta...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Folhas Laranjas II

Pelos velhos tempos...

Antes mesmo que pudesse chegar, se foi
Ficaram os desejos e se foram os sonhos
Deixou-lhe uma canção francesa que falava de amor
E dezenas de outras que falavam de saudade
Deixou-lhe a esperança do encontro e o desespero da solidão
Uma folha alaranjada e um papel em branco
Nenhum telefone, nem a certeza do nome
A indelicadeza do desamparo
Do abraço oferecido e depois negado
Assim como um estranho que te deixa só no banco de ônibus
Levantou-se e foi embora

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Eu, eu mesma e é isso aí

Chegou do trabalho mais cedo. Dia de jogo. Brasil e Chile. Não estava afim de fazer nada. Recusaram seu convite e ela simplesmente não queria aceitar o convite de mais ninguém. Sem barzinhos, sem muitas cervejas, sem cornetas, só ela.

Às 3 e meia em ponto estava em casa. Ligou a tv e foi se trocar, por 'se trocar' entenda tirar a calça jeans, os sapatos e colocar uma pantufa. O único traço de torcedora que lhe restava era a camisetinha branca e o 'Brasil' em azul, era o máximo de verde-e-amarelo que ela conseguia figurar naquela segunda-feira morna.

Enquanto ouvia o hino nacional e todos os rituais próprios desses jogos arrumou seu kit-sozinha-em-casa: cigarro, vinho, notebook e o bom e velho companheiro de sempre (rock and roll, óbvio). Foi para a sala e assistiu ao primeiro tempo com o mesmo ânimo de quem abre um pacote de bolacha quando está sem fome. Não que não gostasse, mas simplesmente não estava no clima, estava afim de se curtir e foi o que fez... Ficou ali com seus pensamentos e um barulho de vuvuzela do apartamento ao lado. Quando perdeu de vez o entusiasmo pelo jogo e nem aquelas coxas a faziam prestar atenção no 2x0 que seguia, decidiu assistir a segunda temporada de Sex and the City.

Lá estava ela: fumando, bebendo, trajando apenas uma camiseta, ouvindo Jimmy Hendrix e assistindo a uma engraçada cena de sexo de um seriado americano. Mais deprimente impossível. Mas ela se sentia tão confortável, tão deliciosamente ela mesma... Que começou a imaginar o que pensariam se a vissem daquele modo... Cabelo despenteado, largada no sofá, cara de sono, mas era ela, puramente ela, sem intervenções, sem disfarces, sem jogo de luz ou de palavras.

Ela era exatamente aquilo ali. O conforto do vício na ansiedade, o programa ruim de televisão, a euforia da música boa e a delicadeza da pouca roupa. Assustadoramente ela mesma. Se pudesse fotagrafar-se naquele momento, seria um retrato fiel, dos mais fiéis que se pode ter, daqueles que contam com a disposição mais honesta e perfeita dos elementos que o compõem. Mais do que uma foto de sorrisos na festinha, mais do que a maquiagem impecável de uma noite de sábado, o gesto costumeiro de jogar o cabelo de um lado pro outro, mais do que a piada sexual que nunca falha... Era aquela cena... Era aquela não-fotografia que a revelava. E era exatamente assim que ela se gostava mais.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Despoesias V

desarmar
desdizer
descontinuar

desesperar

desfotografar
desficar
desconstruir

desconstruindo
indo?

sábado, 19 de junho de 2010

Fui para os EUA e não esqueceram de mim...

Não quis dizer muita coisa. Não porque me faltavam palavras, mas simplesmente porque elas não sairiam. Ia ficar engasgado naquele choro que já é saudade mesmo antes do tchau. Passei a semana meio que pensando nisso, meio que querendo evitar pensar. Difícil. Bom seria pegar a mala e ter certeza de que domingo você estaria lá. Como sempre esteve e como vai estar daqui a menos de dois meses.

Pois é, só dois meses. É o que dizem os amigos inconformados quando começo a reclamar dessa viagem que você arranjou. Tão longe. Como que eu faço? "Só dois meses..." Isso porque eles não entendem porcaria nenhuma desse, que eu tenho certeza, é um dos amores mais gigantes e mais sinceros que eu já senti e vou sentir na vida. Sempre que eu vou falar de você pra alguém fica essa sensação de nunca conseguir dizer exatamente como é... E o olho começa a encher de água, porque o coração fica feliz toda vez que lembra de como é bonito amar alguém assim...

E uma coisa você tem razão mesmo quando brinca: eu sou egoísta mesmo... Posso estar aqui torcendo pra você aproveitar muito, torcendo pra dar tudo certo e você voltar cheia de história boa pra contar, mas bem lá no fundo eu queria que você ficasse e fim! Simples. Assim como quando eu te encho o saco pra você não estudar naquela hora ou não ir dormir antes das quatro. É egoísmo... E eu já te disse isso... "Que o amor é egoísta às vezes..." Embora o meu seja muito!

Podia escrever infinitas linhas enumerando cada coisinha do meu dia-a-dia que vai ficar meio sem sentido só porque você não vai estar lá. Algumas coisas farão mais sentido, é verdade. Afinal, tem horas( muitas horas, muitas mesmo!) que a gente nem sabe mais porque tá rindo. Mas só de pensar em não ter ninguém gritando 'neidiiiinha' quando eu entrar no apê, o coração aperta doído...

Vai entender... Tem coisa que a gente não explica e é melhor nem explicar mesmo... E eu te pedi um chaveiro do Mickey, mas acho que quando você chegar aqui, sou eu quem vai te dar uma lembrança - estampo numa camiseta e faço você usar: Fui para os EUA e não esqueceram de mim.

domingo, 13 de junho de 2010

Espelho desencontrado

"Você é o que ninguém vê"

O sorriso largado
O choro baixinho

O pêlo arrepiando
E o arrepio que só você sente

A nudez mais crua
O desejo mais intenso

O cheiro que atrai
A química que gruda

A sensação de queda livre
O vento no cabelo

A alegria de estar aqui
O medo de morrer

A alergria
O medo

A ansiedade um mês antes
O alívio um segundo depois

O não se reconhecer
O espelho que trai

Cada milímetro do corpo
Cada milha de distância

A solidão do cigarro
A companhia dos fantasmas

A loucura desenfreada
A sanidade comedida

A música alta
O silêncio ensurdecedor

A essência e o excesso
A falta

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crônica enxaqueca crísica

A enxaqueca não deu trégua... Não conseguiu pensar em levantar da cama antes que a fome do almoço batesse. E foi bater lá pelas três da tarde. Almoçou, deu um jeito no apartamento e deixou tudo aparentemente arrumado, não fosse o cheiro absurdo de cigarro entregando os excessos da noite anterior...

A enxaqueca, como pode pensar você, sádico leitor, não era fruto de nenhuma bebedeira. Problema antigo, de infância, coisa crônica. Tratou de tudo que é jeito e não acertou. O jeito, então, foi se acostumar. Mas tinha dias, como hoje, que parecia que ia morrer se ousasse apressar o passo. Sensação de pressão baixíssima. Merda. Sentou e ficou. Dormiu. Finalmente. Seis da tarde.

Precisava estudar. Deveria. Não conseguiu. O trabalho a ser entregue amanhã (logo mais, na verdade) seria feito no intervalo das aulas. Não dava pra olhar para o computador, não dava pra raciocinar em paz... O zumbido no ouvido era constante. Vacilasse a cabeça para a direita sentiria o peso do mundo a um passo de derrubá-la pro inferno. Recostada no sofá, a nuca parecia ser atirada contra uma longa agulha precisamente posicionada para lhe atravessar o crânio. Impossível continuar daquele jeito. Voltou para a cama e tentou abrir os textos para estudar. Pegou no sono de novo. Não durou muito.

A conversa das meninas na sala a distraía, resolveu ir para lá. Uma pizza requentada no microondas, um copo de guaraná sem gás e o olho pedindo pra fechar e dormir em paz... Agora era aquela hora em que começava a ouvir os barulhos... Se fosse parar pra prestar atenção poderia dizer que eram vozes, mas vá, vozes na cabeça era tudo que ela não precisava ter. Tudo psicológico ia matutando enquanto as meninas falavam sem parar. Pode ser eco. Eco não era. Aqueles barulhos de fora eram diferentes dos de dentro. Deixou pra lá. Vozes. Ha ha ha.

Resolveu que deveria estudar lá pelas onze da noite e se obrigou a fazer isso com ou sem dor. Seria com dor. Zumbido. Que grande dia. Começou a ler... Os textos eram legais, o professor era perfeito, tinha estímulo para continuar sua jornada estudantil até dar fim a todo aquele material e sentir que valia a pena acordar cedo no dia seguinte para fazer a prova. Acordar... Se é que conseguisse dormir. Difícil se concentrar na leitura com as vozes... Eram vozes mesmo? Já estava no maior papo reflexivo consigo mesmo e com as vozes quando leu o texto de um jornalista bem louco de ácido. Será que com ácido as vozes paravam? Será que melhorariam? Preferiu não tirar a dúvida. Vai que dá certo.

Fez uma playlist com canções dos Beatles. Tudo de dor de amor. Ela estava sentindo o amor doer naquele momento. Era amor? Não sabia. Ele não perimitia que ela descobrisse. Medo disso, daquilo. Droga. Vontade de desistir. Mas tinha aquela sintonia toda. Aquela. E mais uma tonelada de carinho junto. Difícil desligar como quem aperta um botão de on/off... Definiu as lembranças em ordem aleatória e ficou ali sorrindo um sorriso meio que lamento, meio que felicidade. Mania de gostar. Mania de ir de cabeça. Queria poder dar um passo pra trás. Tarde demais. Tanta gente legal e foi justo se meter com quem não podia. Parabéns. Passou o dia esperando por ele, não que ele tivesse prometido aparecer. Era só aquela espera eterna a que se propõem os apaixonados mais idiotas. E a nuca doía. E o coração também. Tem horas que só Beatles dá conta. E continuava a botar fé na frase que proferia tanto ultimamente: eu acredito no poder de cura de um refrão. John e Paul sabem das coisas. Ela também sabia.

Ficou ali jogada no sofá até às quatro e pouco da amnhã. Quando terminou de estudar (leia-se: passou os olhos pelo conteúdo e deu-se por satisfeita) não tinha sono. E as vozes, ora essa, estavam tão amigáveis que seria um pecado deixá-las sozinhas. Acendeu um cigarro e ficou tagarelando com seus novos amigos. Tudo gente boa. Só faltava dar nome. Mas sabe como é... Isso é igual cachorro, é só dar nome que você se apega. E não andava muito afim de se apegar a coisas mais abstratas do que já tinha se apegado. Imaginação fértil.

O pé gelado já ia dar sinais de abandono do corpo se ela ficasse mais tempo na sala. Tudo fechado e o vento gelado persistia. Decidiu ir dormir, ao menos deitar. Enrolou-se no cobertor do Mickey e sentiu que a madrugada ainda ia lhe roubar mais umas horas de sono. Decidiu escrever. E ficou escrevendo aleatoriamente asneiras sobre si mesma. E a enxaqueca doendo, presente contínuo mesmo. Dor que permanece e insiste. Doendo. Leu o texto em voz alta para os novos amigos. Aprovaram. Louca. Apagou a luz, desligou o notebook e enfiou o fone de ouvido já que os amigos não pareciam querer deixá-la em paz. De Beatles para Chick Corea. Tem horas que nem Jesus, nem jazz salvam.

Bom dia.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Despoesias IV

meio tempo
meio amor
meias palavras

e eu vou ficando pela metade
nessas meias horas

sem saber que parte de mim você leva
cada vez que volta

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Carinho

Aos meus pequenos...

Se você tiver um sonho ruim
Corre pra minha cama que tem espaço
No coração
E no colchão

Não precisa vir na ponta do pé
Não precisa fazer silêncio
Pode chorar alto de medo
Que eu te faço carinho até acalmar

Mas não esqueça a pantufa
Que o chão tá frio
Tá gelado
E você pode resfriar

E deixa eu te contar uma história
Dessas de bichinhos e princesas
De carros que falam
E amizades que começam num castelo de areia

E se você pegar no sono
Não precisa se preocupar
Esse é o meio da história
O final eu ainda preciso inventar

terça-feira, 1 de junho de 2010

Filosofias de Sarjeta

Um brevíssimo olhar sobre o tesão não sexual (ou não)

Paz, amor e tesão! Quem me conhece ou já passou mais de um aniversário comigo sabe que isso é o que desejo sempre para as pessoas quando quero, de fato, desejar a elas o que eu considero as coisas mais importantes dessa vida.

Aprendi isso com meu tio João, desde pequena ouço ele falando isso pra todo mundo, sem distinção. Tendo você 5 ou 80 anos era isso que ele ia te dizer quando fosse dar o "feliz aniversário"... Era engraçado, todo mundo ria, afinal é uma releitura do 'paz, amor e sacanagem'... Aquela pitadinha de piada sexual que torna tudo mais engraçado. Cresci ouvindo isso e com o tempo, sacana e esponja de besteiras que sou, incorporei o hábito do meu tio... Passaram-se alguns anos, e o que era piadinha, começou a fazer mais sentido. Explico.

Paz e amor são, com toda certeza, coisas essenciais para se viver... o keep walking fica praticamente impossível sem eles. Mas... Só paz? É marasmo... Só amor? É bad romance... E ainda que ambos habitem seu lar e seu coraçãozinho, falta aquele 'tchuns', aquilo que te faz acordar num dia que amanhece meio cinza com chuva e frio e mesmo assim sentir vontade de pular da cama porque por mais que tudo jogue contra, você tá afim de sentir e fazer tudo como nunca.

É minha gente, é nessa hora que só o tesão dá conta... Tesão é aquilo lá... Aquiiilo... Todas aquelas Teorias Especiais Sobre Assuntos Orgásticos (não sei onde vi isso, mas adorei!), mas tesão também é aquilo que te move, que te dá vontade e coragem pra conseguir alguma coisa... Na verdade é mais que uma vontade aleatória, é a vontade de fazer acontecer... Por isso eu acredito que ele, junto de paz e de muito amor são os três pilares da felicidade... Mas óbvio que a conotação sexual está sempre presente, porque a gente é tudo sacana e gosta de falar bobagem!

Resumindo fica mais ou menos assim: tesão pra fazer vontade, amor pra fazer acontecer e paz pra continuar fazendo! Tá bom pra você?!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Despoesias III

A conversa era para ser definitiva
Acabou. Acabou...

Entre justificativas... Declarações
Poesia velada. Palavras que se queriam versos

E no meio desse amor desencontrado
Os olhares se encontravam pedindo mais

O tempo nunca se fez tão necessário
Mas o beijo nunca se fez tão urgente

terça-feira, 25 de maio de 2010

Despoesias II

Não espero que você responda, corresponda ou goste,
É só essa minha necessidade de escrever, me abrir e escancarar...


Na vã fragilidade de quem se entrega
Eu vou contando meus pedaços no ritmo de um blues qualquer...

Não se chateie se chegar uma carta, se eu telefonar e me declarar,
Não precisa dizer nada, pode até desligar...

Mas se desligue, então, de uma vez
Só não me deixe no meio passo entre o mal e o bem...

Não me julgue se eu não sei ser pela metade
Se eu não sei te querer ao meio, é essa minha mania de tudo inteiro...

E na tensão dessa intensidade tão minha, eu te escrevo não para você ler
É só para eu saber o quanto se perde no caminho longo da saudade até o papel...

domingo, 9 de maio de 2010

Despoesias...

Não se demorou no beijo. Não falou de saudade no abraço.

Não a puxou pra perto quando esperavam atravessar a rua. O carinho no cabelo ficou assim, meio sem vontade

Não sorriu o mesmo tanto e quando falou, nem precisava dizer mais nada. Ela sabia.

Engraçado como as coisas seguem um caminho lógico em direção ao fim. Depois daquele dia o telefone nunca mais tocou.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Em casa...

Deixaram a amiga no portão do prédio, não era tarde, início da madrugada de uma quinta ou quarta-feira. Agora estavam a sós no carro e tinham um longo caminho de volta até as redondezas da Consolação.

Não se importava em sentar com os pés no banco mesmo de vestido... Ela não sentia vergonha, aliás, ele era daqueles amigos que a deixavam completamente a vontade... com ela mesma. Acendeu um cigarro enquanto cruzavam uma grande avenida, ele dirigia, ela sentia o vento no cabelo. Embora não fosse uma noite quente, ela gostava de sentir o ar fresco no rosto, aquela sensação forjada de liberdade.

Soltou alguma das suas verdades. Adorava soltar afirmações malucas com a maior naturalidade e se divertir diante do assombro das pessoas. Com ele ela sabia que a reação não seria assombro, mas uma gargalhada de quem finalmente, depois de um papo com trezentas pessoas numa mesa de bar, reconhece a amiga da intimidade: 'aquele povo não gosta de trepar!'. Ele como o esperado, riu. Não via a hora do assunto começar. Não havia melhor conversa do mundo para os dois do que sexo.

Como de costume perguntou a razão daquela afirmação, e ela, que adora explicar o que lhe parece muito natural, iniciou... 'aquela gente não trepa porque não tem cara de que trepa'. Continuou. 'Quem trepa fica com cara de sexo, por mais nerd que seja, você percebe nos olhos da pessoa que ali tem... Sou ótima em identificar os tipos'

Ele sorriu e ela sentiu que era pra prosseguir. Ajeitou o cabelo. Tinha essa mania, jogava de um lado pro outro. E com aquele cigarro na mão, sentada daquele jeito figurava uma perfeita puta. Perfeita puta ela seria, por curiosidade. "Não dizem que trabalho tem que te dar prazer?" Puta seletiva, oras. Trepa com quem quer e ainda ganha um dinheiro. Nunca entenderia o preconceito com as putas. Tanta gente fazendo dinheiro de tanto jeito errado, ela faria com sexo. Gozaria horrores e ainda ganharia para os luxozinhos extras, esses mimos que as pessoas se permitem no íntimo da sua futilidade.

"As pessoas parecem não gostar mais, tanto jovem com essa carinha de blasé. Transitam entre os gêneros beijando quem aparecer na frente, mas na hora de trepar a coisa não pega, não tem aquele lance forte de pele. Sempre fica parecendo que é uma coisa como se fosse uma consequência de uma amassada mais forte de uma baladinha." O carro continuava, a conversa continuava e as afirmações continuavam. "Eu trepo porque eu quero trepar, não é consequência de nada. Eu só beijo se eu quero trepar." As pessoas a cansavam no assunto sexo. Liberal demais, livre demais, queria poder mandar todo mundo se foder e foder como se não houvesse amanhã. Mas ainda dependia da mamãe, então era hora de guardar um mínimo de respeito a quem exigia que ela se comportasse de forma respeitosa. Fazia escondido.

"Imagina, tem gente que não gosta de chupar, como pode?! Tem gente que não deixa gozar na boca, tem gente que não gozou na vida!" Ia afirmando entre a indignação e o tédio. Para ela sexo era o altruísmo mais lindo do mundo, era assim que fazia. Sentia prazer em dar prazer ao outro, não se preocupava com o seu, escolhia muito bem os seus amigos de foda e sabia que eles dariam conta de se preocupar com isso. O que interessava era o outro. A busca por esse prazer que vem de quem se sente. Gozava ao fazer gozar, e não media esforços para dar ao outro o que ela queria pra si. "Trepar é lindo. É uma declaração de amor ao corpo, a alma, ao cérebro, a você e ao outro. Como que alguém pode aceitar ter menos do que uma vida sexual ativa?!" Era demais pra ela... "Trepem comigo, com os outros, com si próprios. Vamo, minha gente, trepem!"

Ela foi reconhecendo as ruas, acendeu mais um cigarro, o último do trajeto. Tocava Ramones. Aumentou o som e permitiu-se ficar naquela música-refrão. Em frente ao cemitério trocou mais uma frase de efeito com o amigo, não se lembra o que foi, mas foi alguma coisa que o fez gargalhar. Aliás, ela amava a risada dele. Parceiríssimo. E depois de tanto falarem dessas coisas sexuais e não ginecológicas, desceu em frete a rua do cemitério. Como os Ramones ela não queria, e não seria, enterrada num cemitério de animais.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Monólogo de um insone

-No que você pensa antes de dormir? É, você mesmo. Aliás, você dorme? Aliás, você existe? Eu penso em muitas coisas. Engraçado como um pensamento vai puxando o outro. Eles vão se organizando como uma corrente, os assuntos são os elos... E de repente chega uma hora que você não consegue lembrar. Eu nunca consigo lembrar o primeiro pensamento da corrente. Agora mesmo eu estava tentando lembrar porque eu tinha resolvido pensar em um amigo que não via há anos. Você sabe onde ele está? O que ele está fazendo? Você poderia fazer ele falar comigo. Entendo, não dá. Livre-arbítrio. Pensei nele porque vi uma amiga em comum. E lembrei que a vi, porque comentei dela com outra pessoa. E lembrei dessa pessoa porque ela me contou uma piada engraçada hoje, mas não lembro porque lembrei da piada. Não consegui completar a corrente. Droga, esqueci o dinheiro do livro da Lari. Preferia comprar um livro de jazz. Jazz é legal, mas prefiro blues. Blues é bom de ouvir. Blues leva a gente... Vai indo, indo... Ah, o menino com sorriso de blues. Inesquecível. Saudade dele. Sorriso bonito. Lindo. Lindo também é o amigo do vizinho. Vizinho esse que tem um gosto bom pra música. Ele sempre emenda alguma música que eu canto e a gente acaba cantando junto. Outro dia foi 'leaving on a jet plane'. Meu irmão ama essa música. Vive cantarolando pelo sítio. Adoro acordar sábado de manhã com ele cantarolando lá na adega. É... dá pra ouvir de lá de casa. Melhor irmão do mundo. Eu sempre fico achando que tudo meu é o melhor do mundo. Os melhores amigos. A melhor faculdade. O melhor bolo. A melhor risada. A melhor playlist. A melhor trepada. Acho que é por isso que vivo de bom humor. Tudo meu é o melhor. Vou reclamar do que, né? Da dor de cabeça... Acho que já acostumei com ela. Sempre faz companhia. Não tem faltado nenhum dia há uns sete anos já. Dorzinha chata. Acostuma. Tudo acostuma. Ou a gente se conforma. Não me conformo, ele não pode ter ficado com aquela chata. Vou perguntar. Cara de pau demais. Deixa pra lá. Ele não me deve nada mesmo. Eu devo um café pra ele. E a discografia dos Beatles. Ele me lembra 'don't let me down'. Mas acho que a minha preferida hoje é 'lucy in the sky with diamonds'. Cada dia eu tenho uma música preferida. Às vezes, várias durante o dia. Vou mudando. Chato isso de ter uma música preferida, uma roupa preferida, uma comida preferida. Essas coisas vão mudando, pelo menos comigo. E não tou falando de amadurecimento. Tou falando de um dia pro outro mesmo. Ontem minha comida preferida era panqueca, mas hoje não posso nem ver. E tou achando que amanhã vai ser macarrão. E amanhã talvez eu prefira uma outra canção dos Beatles. Não gosto de me prender muito a essas coisas. "Mas você não disse que preferia ir ao cinema a que ficar comigo em casa?". Disse, disse. Ontem. Ontem eu preferia. Hoje não. Não fique me cobrando essas coisas. Mania chata. Chato é esse negócio de ter pé gelado. Três horas da manhã e nada de esquentar. A mão tá gelada também. Droga. Preguiça de pegar mais cobertor. Vai atacar a rinite. Rinite é coisa de gente fresca. Como eu sou fresca! Como ele me aguenta? Eu sou muuuito chata. Ele diz que é charme. Lindo. Sempre tentando me agradar. Agrada. A gente tá brigado. Nem sei o motivo da briga direito. Acho que vou ligar pra ele. Tá tarde. Ele vai gostar. Caixa postal. Saudade. Dele? Das coisas que ele faz por mim? Sei lá. Discutir relação sozinha é muita paranóia. Paranóia é a Anzi falando que tem aflição de passar a unha no caderno. Doida. Igual eu. Igual o Murilo. Saudade do Murilo. Quanta saudade hoje. Saudade de quem eu vi ontem mesmo. Essa saudade eu não deveria sentir. Tanta coisa eu não deveria sentir. Não deveria ter sentido tesão por aquele menino no shopping. Mas também, só senti, não fiz nada. Era lindo. Lindo. Muito lindo. Lindo também era aquele vestido vermelho. Tão caro. Sem dinheiro pra essas coisas. Aluguel, mercado, condomínio, luz, internet... Falta algo? Preciso separar a grana para a Lari. E... E... Olha só Tchã-nã! Completei uma corrente sem querer. Odeio dormir com correntes de pensamentos inacabados. Acho que agora pego no sono. Boa noite, ae. Mas você dorme? Você existe? Acho que já te perguntei isso hoje...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma vida em uma noite I

Entrou em casa como quem anda em meio às quinquilharias da loja de antiguidades, desviando de vasos, miudezas e ruídos. Um esbarrão sequer poderia lhe custar caro, acordaria a mãe, acordaria o gato, acordaria seu pai.

Vacilou. Não, não esbarrou em nada. Vacilou no pensamento. Não haveria ninguém ali, além do gato, que pudesse acordar com qualquer barulho que fizesse. Poderia ter orgasmos múltiplos no tapete da sala e gemer feito uma vagabunda. Ninguém iria ouvi-la. Culpa da bebida, imagina só... Sua mãe morrera há três anos e o pai... Bem, o pai ela nem sabia quem era, exceto por uma foto.

Willie Nelson veio deslizando pelas colunas do velho apartamento, um miado magro, de quem não via comida há três dias. Ela deu uma gargalhada do gato esquelético, depois sorriu, quis levá-lo até a cozinha, mas estava bêbada demais para tanto esforço. Tirou um chiclete velho do bolso e deu pro bichano, que, se humano fosse, teria mandado-a para a puta que pariu. Sentiu nojo. Quis vomitar. Segurou. Não queria ter o que limpar na manhã seguinte, não queria ir até o banheiro, queria deitar naquela cama desarrumada e desmaiar, como quem dorme o sono dos justos.

A droga e a bebida competiam pela medalha de ouro no quesito efeito colateral. Quando se jogou na cama só teve tempo de virar para o lado e vomitar no que seria a almofada do gato infeliz. “Merda”. Não que ligasse muito pro animalzinho, mas aquele cheiro a noite toda era azar demais. Tacou a almofada pela janela. Deve ter caído no meio da Consolação. Um ‘ai’ ecoou pela rua e ela desejou que tivesse acertado em uma puta. Puta ela também era, afinal, era com os programas que mantinha seus vícios. Mas eram esporádicos, “transas ocasionais”, ela dizia debochada.

Junto com o vômito, foi-se o sono... E mais uma noite, ou manhã - pela claridade de um Sol que ameaça nascer outono em verão - ela permaneceria acordada. A insônia era costumeira, velha conhecida desde que contar os anos cabia nos dedos de uma das mãos. Mas naquela noite ela queria descansar, estava exausta, não que tivesse trabalhado muito. Depois de foder horrores, as pernas pareciam estar em permanente dormência, as pálpebras se encontravam, mas ela continuava lúcida, quem visse, diria que estava dormindo profundamente, mas estava atenta, e para distrair da eternidade de uma manhã que se prometia preguiçosa, ela deixou que as cinco trepadas seguidas levassem à lembrança dele. Era para ele que ela ouvia aquela canção. Aquela.

Dele ela já até tinha cobrado pelo sexo, mas faria de graça a vida toda, se ele pedisse. Com ele ela gostava de curtir, era sintonia pura, era tesão total, era até amor, juraria ela na hora do êxtase e em tantos outros momentos de sanidade também. Com ele dava gosto, ela sentia prazer de verdade e depois de toda a selvageria e de ser virada do avesso, ele aninhava no colo e tinha a delicadeza de chamar aquele mulherão de pequena, ‘minha pequena’, ele costumava falar. E ela gostava... Com ele se sentia segura, com ele passaria o resto de sua vida, por ele ela largaria o emprego medíocre na Consolação e, principalmente, os bicos na Augusta.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tempero de miojo

Sorriso pequeno
Abraço frouxo
Amor sem vontade

Tempo escaço
Vidro fechado
Flor de plástico

Volume baixo
Banho rápido
Café na rua

Bom dia ao acaso
Boa tarde pra que?
Boa noite pra ninguém

Bolo comprado
Carinho embalado
Tempero de miojo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Um quarto de hora.

Ah que preguiça! Faça isso! Faça aquilo! Se está com preguiça, então durma. Porra, não quero dormir, quero continuar aqui. De preguiça! Nada mais delicioso do que ficar assim, fazendo absolutamente nada, só envelhecendo. É supremo. Nada de brigar com o corpo, forçar movimentos... Nada disso. Entregar-se. Entregar-se a si mesmo. Besteira isso de ficar se esforçando para fazer algo que não se está com vontade. Queria paz. Ah que preguiça!

Devia ter nascido herdeira. Olhava para os pais. Esse negócio de filha. Cobrança. Uma chatisse. Coma direito. Estude. Emprego. Arrumou um emprego? E o namorado? Outro? Vai sair agora? Preguiça dos velhos. Sempre tão atentos. Ahhhh. Bocejo. Nhém – nhém. Delícia de rede. Delícia de noite. Pode morder pernilongo. Preguiça. Ficou olhando. Um ml de sangue a mais ou a menos. E matar pernilongos? Ahhh preguiça. Rico não tem filho, tem herdeiro. Zuuuuum. Pobre preguiçoso é pobre preguiçoso. Rico fica dizendo que é artista. Exercício de contemplação, autoconhecimento. Meter-se numa ilha, com uma rede, uns cocos e quando faltasse algo... Mandava trazer de helicóptero. Delícia ser rico. Piiii. Alô, me traz um chinelo e duas camisinhas. Ha-ha-ha. Fosse rica ia ser excêntrica. Rico excêntrico é quase uma profissão. Dá trabalho. Fingir que não cuidou do cabelo. Sair com bolsa cara e chinelo velho. Bocejo. Xá pra lá.

Xiii. Já vou, mãe. Caralho. Tá tão bom. Olá Tommy. Tommy can you hear me? Mudar de música. Não. Deixa essa. Tooommy. Tooommy. Antes ser surdo que ficar ouvindo te chamarem a cada cinco minutos. Deixa o jantar esfriar. Macarrão é bom frio. E a preguiça? Levantar da rede? Nhá. Sem fome ainda. Preguiça de desejar boa viagem a amiga. Preguiça de ser educada. Tudo tão certo. Morra todo mundo. Ou melhor, morro eu. Mas assim, de leve, dormindo. Delícia. Sem dor. Sem esforços. Acordar alminha de outro mundo.

Deve ser bom ser alma. Levinha. Atravessando tudo por aí. Só no vento. Pegando carona em brisa. De vez em quando aparecer para assustar um tonto. Alma não deve ter hora. Puta saco Deus ficar dando ordem. Vai encarnar naquele ali. Eternidade também dá trabalho. Preguiça de viver pra sempre. Imagina. Mas deve ser bom ser alma. Invisível. Não precisa de banho. Não precisa de carro. Não precisa de roupa. Ah. Andar pelada por aí. Noite de verão igual essa? Só ia andar pelada. Alma é que sabe viver. Ou melhor, morrer. Sei lá. Alma. Como é que é esse negócio. Acreditar em Deus. Delícia. Evita a fadiga. Você nasceu aqui porque Deus quis. Você não foi feliz porque Deus quis. Fica doente? Reza. Puta conforto. Deus é que começou com esse negócio de preguiça. Descansar no sexto dia. Sétimo. Deve tar descansando até agora. Deixou correr solto. Ha-ha-ha. Maior zona. Carnaval. Aeee. Todo mundo pelado. Tá descansando, né? Entendo. Preguiiiiça.

Preguiça de ser legal. Preguiça de existir. Ah Gabriel, você é legal, mas precisava ligar agora? Deixa tocar. Gabriel. Puta delícia. Só de pensar, arrepia. Trepava que era uma coisa. Mas essa mania de casar, compromisso. Xiii. Mais tarde. Filhos. Casa ou apartamento? Ilha, Gabriel. No meio do nada. Ilha. Casinha pequena. Só nós dois e o helicóptero de vez em quando. Fosse rica, sumia contigo no mundo, seu gostoso. Jardinzinho bonito na frente. Rede na varanda. Zuuuuuum. Inseticida. Peixinho na brasa. Você cozinha. Eu faço o suco. E sexo. Muito sexo. Trepo contigo até debaixo d’água. Ele deve lembrar. Foi bom. Foda. Casaria agora, mas você tem essa mania de cobrança. Sempre questionando. Deixa rolar. Olha a pedrinha na ladeira, só rola. Delícia. Ir rolando. Pedrinha na ladeira, alma... Coisas boas de ser.

Ah Gabriel. Puta vontade de trepar. Liga de novo que eu atendo, seu safado. Não vai ligar, né? Vai fazer charme. Adoro. Você, eu a rede. Mais nada. Nem precisava. Trepar com preguiça. Corpo meio mole, deixando levar. Delícia, Gabriel. Delícia. Você é, pois é. Acende um cigarro. Cigarro é legal. Vai queimando, sem pressa. Melhor que cigarro é fumaça. Esvaindo na preguiça do abandono. Espalhando, sumindo, diluindo. Diluir é uma palavra linda. Diluo-te. Ha-ha-ha. Ai Gabriel, liga de novo que eu atendo. Vem fumar comigo. Se os velhos não estivessem em casa. Puts. Trepava fumada. Fumada e de preguiça!

People try to put us down. Talkin’bout my generation. Preguiça. Geração isso. Geração aquilo. Mania de engajamento. Eu quero dormir. Não quero lutar contra a fome. A preguiça é egoísta, meus amores. Não ligo para a fome. Eu não tenho fome. Tá ótimo. Mania de oposição. Tá bom assim. Dá trabalho ser da oposição. Apontar erro aqui. Se revoltar ali. Odeio gente que quer discutir política em hora errada. A pessoa nem quer discutir política. Só quer dizer que sabe. Ah vá tomar no meu cu! Tanta coisa legal para conversar. Conversar sobre algo só pra dizer que sabe. Asneira. Vamo falar de rock. The Who. Adoro Who. Quem? Quem...

Preguiça não é um estado. Preguiça é estilo de vida. Passaria a vida assim. Contemplativa. Rica. Rá! Ia pintar umas pessoas peladas. Tocar gaita pro Gabi em noites de luar. Ah Gabi. Só isso. Mais nada. Mandava a faculdade pro inferno. Mandava o patrão pro inferno. Aquele fedido. Fedido é legal. Maior briga. Aí você vira e chama o fulano de fedido. Digno. Não quero mais trabalhar pra você, seu fedido. Ia contar para os netos. Netos? Mas nem filhos... Criança dá trabalho. Mas brincar de fazer criança é legal. Só ensaiando. Tamo bom nisso, hein, Gabi? Anos de ensaio. Dias seguidos. Ah Gabi, até Deus descansou no sexto. Sétimo. Mas se você ligasse, eu atendia e fazia a tarada. Te pego em meia hora.

Já vou mãe. Já vou. Tou aqui brincando de Deus. Tou descansando e deixando uns pernilongos viverem. Puta poder. Decidir a vida do outro. Pernilongo vive. A loura aguada que quer dar pro Gabi, morre. Existir dá trabalho. Até pra planta. Fotossíntese. Puta cansaço. Tudo tem uma função no sistema. Coisa de gente idiota, babaca, sistemática. Tenho função nenhuma, não. Tou aqui a passeio. Passeando. Curtindo. Só. Envelhecendo. Tudo tende a preguiça. Tudo tende a parar. O corpo morrendo. Envelhecendo. Tudo parando. Preguiça é o começo e o início da vida. Você nasce no orgasmo que é a preguiça do corpo. Você morre na morte. Dã. Que é a preguiça do seu corpo.

As pessoas deviam dar valor à preguiça. Faz tão bem. Você vai se enchendo de nada. Mas é uma sensação linda. Poético o negócio. Masturbação do vazio. Cultivar a preguiça. Exercício de... Não. Exercício lembra regra, que lembra trabalho. Outra palavra. Dane-se. Mas preguiça é bom. Zuuuuuum. Bicho agitado. Preguiça de bicho agitado. De gente engajada. De criança prodígio. De idoso ativo. De adolescente com mania de duas faculdades e três empregos. Ócio, meu povo. Ócio. Mania de diversão. Diversão tá aqui dentro. Respira fundo, solta. Olha a fumaça. Diversão garantida. Ou seu dinheiro de volta. Mais quinze minutos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Teorizando...

Cá estou eu aqui de novo para falar do nosso assunto preferido! Tchanãaaaa!

Estive pensando esses dias, na verdade, há algum tempo já, nas diferentes vontades que as pessoas despertam na gente... E cheguei a conclusão que tesão é bem diferente de vontade de dar! (meninos, substituam o ‘dar’ pelo verbo que mais lhes parecer adequado, ok?!)

E como eu gosto de teorizar sobre as coisas, vamos desenvolver a idéia...

Suponhamos que você está virando a esquina e bate de frente com um bofe lindo, perfumado, sonho de consumo! Dá aquela olhada, suspira e pensa ‘aooooo lá em casa’, mas continua seu caminho feliz e saltitante e antes da próxima esquina já esqueceu o dito cujo... A essa coisinha que faz você suspirar, sentir um friozinho na barriga, imaginar uma ceninha pornô, até se divertir – e fim! – eu chamo de tesão...

Tesão é teoria pura e simples! É uma sensação que não necessariamente poderá ser compartilhada, é algo que me faz pensar que a pessoa é linda, delícia, mas você pode muito bem resolver isso sozinho, dar boa noite pra mão e ir dormir. Bate e vai embora.

Mas vontade de dar... PUTA QUE PARIU!... Vontade de dar é outra coisa. É você olhar e querer, mas querer muito, de não conseguir se controlar... É querer trepar como se não houvesse amanhã, até acabar a energia, até não ter mais forças.

A trepada só com tesão é aquela coisa egoísta, quase uma punheta a dois, cada um satisfazendo sua própria vontade, buscando seu próprio prazer...Vontade de dar é mais que isso, é mais do que se ocupar do seu próprio prazer, do que desejar obter prazer do outro. A vontade de dar, meu amigo, te faz querer matar o outro de tanto gozar.

E não tou falando de amor, nem de sentimento nenhum, o negócio aqui é pele, química, sexo por sexo!

Você olha pra pessoa e sabe o que vai acontecer, não tem como ignorar, não é nenhum pouco racional, às vezes a pessoa não faz nem exatamente seu tipo, mas tem aquele negócio, aquela coisa que pega, que te puxa, que te faz querer mais do que qualquer outra coisa e que não te deixa sossegar enquanto você não conseguir...

Tesão tem a ver com beleza, com atração física... Vontade de dar é cheiro, é aquilo que não tem nome mas que te atrai como um imã. Um é satisfação, outro, realização. Um dá e passa, outro, não passa enquanto você não der... Um é uma... O outro? Váaaaarias.

E não tem lugar, não tem hora... Se a vontade bateu, não tem calmante, compromisso, nem vergonha na cara que segure. Vai rolar! E se o negócio é mútuo assim com toda essa força, aí que rola mesmo! Inevitável! E aqui pra nós... Evitar por que, né?!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A pessoa que vos fala continua de férias, mas o blog já tava mais do que na hora de voltar, né?

Embora alguns digam que o ano só começa depois do carnaval, já estamos no segundo dia útil de 2010 e muuuita gente já voltou a trabalhar e muitos nem pararam direito...

Esses dias longe do trabalho, longe do stress de escritórios, máquinas, chefes e papeladas, servem para relaxar, desligarmos do mundo...

Bem, ao menos é para isso que deveria servir... Mas quando você chega em casa no seu primeiro dia das tão sonhadas férias, acaba descobrindo que precisa ir ao médico, tem também os exames clássicos que somos obrigados a fazer uma vez a cada ano, dentista, compras para a casa, as crianças estão de férias, aquele vazamento precisa ser resolvido com urgência, a reforma na garagem não pode mais esperar, sua mãe vem te visitar, sem o direito de escolha você é comunicado sobre onde passará as noites de natal e de ano novo...

Assim, de repente, aquele tempo que você tinha prometido dedicar a você, a uma viagem, ao descanso, ao simples 'não fazer porra nenhuma', cadê? Sumiu!

Férias deveriam durar pelo menos um mês, como eu disse a um amigo hoje cedo, teríamos uma semana para irmos aos médicos de toda natureza, fazer baterias de exames. Outra semana para nos dedicarmos à organização da casa, resolver pequenas pendências, duas semanas (ou mais, para os sortudos) para fazer uma viagem e mais uma semana de pura coçassão de saco!

Aquela última semana em que você vai ficar descansando mesmo, lendo livro, morgando em frente a TV, refletindo sobre a morte da bezerra, dormindo como se não houvesse amanhã... Acho que essa é a mais importante parte das férias... As pessoas não sabem o valor do ócio! E não tou falando de ócio produtivo, de reflexões profundas e úteis... Tou falando desse encontro com o nada, dormir e acordar sem ter nadica de nada pra fazer e ninguém te cobrando sequer um suco de laranja...

Os mais agitados vão dizer que preferem sair, badalar, mas isso tbm cansa, faça isso na semana dedicada à viagem, ou na semana dedicada às compras... Mas experimente uns cinco, sete dias de total inutilidade... Inutilidade para os outros, porque para vocês será muito útil.

Descanso não é passar horas num aeroporto depois de uma viagem maravilhosa e no dia seguinte voltar ao trabalho, descanso é ficar em paz, é se encontrar sem preocupações, deixar a preguiça tomar conta sem medo. Gente, isso relaxa tanto, te deixa tão feliz!

Não ter hora pra tirar o pijama, nem pra comer, nem pra trepar, nem pra nada... É você fazendo o que quiser, a hora que quiser e se quiser desistir de fazer, foda-se... Você não precisava mesmo!

A isso eu chamaria de férias: tempo para fazer tudo que eu preciso e quero e principalmente tempo de sobra para não fazer simplesmente NADA!

Acho que já tava bom, né?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Meus pequenos...


Muito da minha felicidade mora nesses dois ae...

Sobrinhos são como filhos que você não pariu e que não te dão trabalho

Adoro que ela canta Beatles comigo e que fui eu que descobri que ele tem cócegas no joelho...

A felicidade, definitivamente, mora nas pequenas coisas...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Bom mesmo é trepar!

Não há dois papos que me animem mais nessa vida do que falar de trepada e rock and roll! Embora melhor que falar seja fazer e ouvir, respectivamente - pelo menos para mim (perdõem-me os músicos e os voyeurs), uma boa conversa é sempre um bom começo...

Mas como de rock and roll eu não tou afim de falar agora, vamo falar de...
... TREPADA!

O papo aqui não vai ser sobre experiências, dicas, sugestões nem nada dessa papagaiada de sexóloga feliz ou de revista NOVA (aliás, uma dica eu vou dar, não façam nada do que pode estar sugerido nas páginas dessa revistinha aí, uma publicação que toda semana tem que trazer 1001 dicas de sexo quente é porque tem um editor que ainda não descobriu do que é capaz um bom papai-e-mamãe!), o lance aqui vai ser semântico...

Do mesmo jeito que pintinhos e periquitas colecionam uma vasta lista de apelidinhos, o ato de descer pro play, também! Mas o que percebemos é uma variação de significado a cada vez que um nome diferente é empregado... Porque não dá pra dizer que coito é o mesmo que 'dar uma', né?

Já que começamos com coito, continuemos... É a expressão mais ginecológica possível, mais desanimadora, mais fria, é pra perder toda vontade de fazer... É quase como acasalar, só que aí muda de profissão e vira coisa de biólogo!

Tão desanimador quanto coito... Transar... Transar é coisa de protagonista virgem de Malhação que fica a temporada toda ensaiando pra dar e quando vê, rola aquela coisa morna que pior do que isso é só pianista e bailarina juvenis em novela das oito.

Aliás, nada igual àquilo... Eles se conheceram no sentido bíblico da palavra e em um clima bíblico também. Não sei se vocês lembram, mas o menino era um que eu sempre acho que é parecido com o tal do Felipe Dylon e ela, se não me engano, fazia uma personagem que sofria de uns transtornos alimentares dos brabos, lembraram? Bem, lembrar da coisa em si eu não lembrei, mas eu lembro da cena em que ele colocava a mão no joelho dela, eu mudava de canal, assistia à metade de um filme e quando voltava a mão dele tava na coxa dela! Que avanço! E por Deus, eu senti vergonha alheia quando ele ficou beijando a mocinha na testa. Sério, quem me dá beijo na testa é minha vó, ok?!

Transar também é frequentemente usado por pais metidos a moderninhos quando querem começar a tratar da sexualidade de seus filhos sem parecerem caretas.

As variações mais descabidas do tipo descabelar o palhaço, fritar o croquete e babaquices adjuntas são constantemente identificadas em rodas acervejadas nos botecos, não é nada sexy, mas é divertido e válido, tudo relacionado ao tema é válido!

Quando o naming se refere a fazer amor, o bicho pega, pode até ser bonitinho para um casal apaixonado, mas soa tão brega e tão argh em qualquer outro contexto que não dá, é muito desanimador, é algo broxante!

Negócio mesmo é trepar! Assim, sem vergonha nenhuma, falando abertamente, não fica esdrúxulo, fica simples, resume, abrange e dá idéia de que tá muito mais gostoso do que se você tivesse fazendo amor, ou sexo ou transando ou bla bla bla...

E quanto mais gostoso, mais a gente gosta!

Boa trepada!

sábado, 7 de novembro de 2009

Menos é Mais: Um Nude para Chamar de Seu

Menos aqui não se refere à quantidade... Estamos falando de ‘aparecer’ o mínimo possível... Menos contrastes, menos cores, menos informação, mas não menos ‘interessância’!

Como a moda parece ter caminhado nos últimos tempos em busca de uma elegância clean, valorizando tecidos e modelagens leves e soltas em detrimento de muita cor e muita estampa... Estava mais do que na hora do nude pegar de vez...

Pra quem não sabe, o nude é aquela cor que em VOCÊ praticamente desaparece! Nua mesmo! Não é só bege, nem rosa chá, ele transita por entre milhares de nuances dessas matrizes, mas não dá pra dizer ‘isso é nude’, porque ele só se torna nude se ele cria a impressão de nudez em quem usa... E nudez não tem a ver com tecido transparente... Tem a ver com aproximar-se ao máximo do tom da sua pele... E por sugerir aquela leveza sensual que a própria cor propõe, o mais adequado para dar vida ao seu modelito ‘nu’ são tecidos naturais, soltos, que sejam coerente com a proposta de parecer que você está confortavelmente livre das roupas.

Que eu me lembre, começou nas passarelas de verão de algumas temporadas atrás... Reparei por conta dos sapatos que, cada vez mais fechados, se aproximavam mais dos tons da pele para evitar aquela sensação de encurtar, cortar a silhueta... As gladiadoras trouxeram o nude pra ficar, com suas tiras pernas afora, a menos que fossem usadas por moçoilas de pernas finíssimas e longuíssimas, não fazia sentido algum criarem contrastes ‘achatadores’.

E a tendência não estava dando as caras só por ali... Há quanto tempo já podemos perceber que a maquiagem perfeita do dia-a-dia está invadindo a noite? Quanto menos aparecer, melhor... Menos lápis preto, menos delineador com contraste gritante... e mais esfumaçados, mais cores que conversem com as cores do seu rosto... Eu mesma demorei a descobrir quanta diferença positiva o lápis marrom fazia na minha maquiagem, aposentei o black! O batom tbm deixou de ser o gloss, aquele brilho intenso... Tornou-se aquela cobertura um cadin mais densa, mais opaca, e novamente o nude entrou em cena para fazer você parecer cada vez mais linda ao natural!

Com as unhas não seria diferente, as It Girls (beijo, Alê) já aposentaram há tempos suas misturinhas de ‘renda com paris’ e estão buscando aquela cobertura perfeita para alongar os dedos, já que a unha fica da corzinha da pele... Mais uma vez, reforçando... Pele, boca, unhas... Cada um tem uma cor e o que é nude em você, pode deixar sua amiga com cara de defunto! Tem que escolher mesmo, experimentar muito... Demorei para achar um esmalte que conversasse com a minha pele perfeitamente... Descobri! Uma cobertura de ‘doce de leite’ e outra por cima de ‘rosé’ (os dois da Colorama!). Para entender melhor, vai lá no blog Dia de Beauté e observa!

E os acessórios? Os acessórios podem ser uma forma de quebrar o look monocromático para as mais ‘coloridas’ ou uma forma de deixar o visual com um ar mais clássico com acessórios que distoem pouco do seu tom de pele (o que não significa que precisam ser pequenos, no caso).

O ‘nu de mentirinha’ confere glamour imediato em qualquer produção, mas com um ar de beleza natural; uma sensualidade que não girta, é discreta; tem que estar muito bem consigo mesma pra usar, porque você fica em evidência (por isso a importância de descobrir o que combina mesmo com vc, pra não correr o risco de apagar) brilha porque soube valorizar as suas cores, as suas combinações e não porque a sua roupa chama atenção, o foco é você, inteira!

Atente para o fato de se bronzear... Se você está bronzeada, o seu nude passa a ser outro (cuidado para não reaproveitar o antigo e ficar pálida), mas tomando os cuidados certos e tendo muita paciência, seus ‘nus’ vão aparecendo e você vai perceber como nunca(!) que a função manequim de loja não está com nada... Você não é um suporte de modinhas... A roupa é quem deve completar você, valorizar o seu melhor e te fazer brilhar sem gloss nem porpurina, só redescobrindo seu brilho natural!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Politicagem discursiva, mané!

Gritam por aí aos quatro ventos que a demagogia tomou conta dos palanques... Pois é, demagogia dói... Mas retórica, meu amigos, a retórica faz milagres. A retórica, veja só, é a elite intelectual dos demagogos

Político que entende de retórica faz chover no deserto e vende terreno fértil no meio do Saara. Mas a retórica não deixa de ser uma forma, cuja estética é louvável, de se mentir. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, essa era da minha avó. E quem floreia o conto, então? Quem dá cor, cheiros, formas e ritmo às palavras de modo que elas se tornam suaves, quase musicais? A persuasão é uma arte!

Porém, melhor do que a politicagem dos políticos, com seus discursos minuciosamente tratados em verdadeiros Photoshops, é a politicagem discursiva do malandro de rua. Esses merecem aplauso!, Fazem disso quase um estilo de vida. E nos arrancam boas risadas quando contam suas espertezas, desde que não sejamos nós as vítimas deles. A retórica das ruas. Aquela que não foi aprendida em cursos de oratória, que não foi ensinada na escola, foi aprendida na marra, porque malandro que é malandro aprende desde pequeno. Retórica de malandro é lábia.

Dava um samba, não? Nada mais digno de malandro do que samba, samba de raiz, aquele samba que não tem ‘qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade’... É samba de alegria pura, cadenciado, próprio para a apresentação do malandro nas bordas da calçada. Puxe uma cadeira. Senta aí. Pede uma bebida que o show vai começar.

Ele convence o português que mês que vem ele paga a conta do pão. Convence a mocinha da floricultura que o coração dele é só dela e com uma rosa que ela mesma vai pagar, o malandro faz cortesia. Convence que mês que vem ele paga. Ele convence a todo mundo que ele é de fato quem ele gostaria de ser. O malandro é perigoso, mas malandro de coração bom, é malandro que encanta, malandro brejeiro, cheio de malícia na cabeça, mas sem maldade no coração. Esses malandros deveriam se tornar patrimônio histórico e deveriam continuar a se vestir de branco e chapéu panamá.

Tenho quase que orgulho quando conheço a mentira e vejo seu autor em plena ação! Gosto particularmente daqueles egoístas que mentem para salvar a própria pele. A grande arma do bom mentiroso é o discurso bem arquitetado! Ele não engasga, ele não hesita em se empolgar num sem fim de casos inventados ao sabor da imaginação, que se bobear, ele mente tão bem que até ele mesmo acredita! E se não tem palavras, melhor! O discurso silencioso - aquela eloqüência que não está em palavras, mas no olhar que se inventa sincero, no sorriso que se abre sem culpa, na atuação magistral do falsário - pode não ser digno, mas é digno de Oscar. E dá-lhe gingado de corpo. Haja malemolência.

E a vitória do malandro é quando ele pensa que mente e a pessoa prefere fingir que acredita. Ele nem precisa da verdade, ele se basta. A gente escolhe acreditar. Discurso de malandro é como molejo de passista, nem que você não goste de dança, o pezinho você não deixa de bater. Malandro contagia. Malandro merecia carteira assinada. - “O que você faz?” – Sou ex-praticante de retórica aplicada, vulgo, malandro aposentado.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Me engana que eu gosto!

Desde muito cedo, muito antes de você aprender a balbuciar um singelo ‘papai’, ensinaram, e você aprendeu direitinho, o significado da palavra chantagem, ainda mais quando se trata de ser emocional. Pois é, você ainda vivia confortavelmente de colo em colo quando dentro da sua aura pura de ‘coisinha-mais-linda-do-mundo’ plantaram a semente da corrupção.

Sim, aqueles a que você carinhosamente chama de ‘papai’ e ‘mamãe’ impediram que você pudesse encontrar o caminho da dignidade plena ao não ter nenhuma nódoa escura no histórico do seu caráter. E como eles puderam ser tão maus assim? Ingenuidade da tua parte, amigo, se ainda não percebeu que eles também foram vítimas da mesma forma que você, e assim tem sido desde que o mundo é mundo e o ser humano tomou conhecimento (mesmo que inconsciente) de que o poder de persuasão,ainda que partindo de premissas de origem duvidosa, pode fazer milagres a seu favor.

Lembra-se de quando eles te davam algum brinquedinho para que você parasse de chorar? Tão logo você aprendeu que, para além da sua diversão, a intenção crucial desse gesto era fazer com que a paz e o silêncio reinassem no recinto, você aprendeu a espernear alto, e eu digo muito alto, toda vez que queria se entreter com alguma bugiganga. Viu? Eu disse... Se esse exemplo ainda parece pouco... Tem mais, muito mais. Ficaria horas aqui dissecando os mais corriqueiros fatos comuns a quase toda infância só para te provar a minha teoria, leitor ingrato.

Nesse balaio de gato, gosto do caso do xixi... Você aprende a fazer xixi lá no banheiro, aquela história de coordenar entre se livrar de uma parcela de roupa e segurar o dito cujo que teima em querer sair. Todo mundo no maior incentivo para você fazer pipi no Sr. Vaso, afinal, fralda tá caro e ninguém mais agüenta colocar seu colchãozinho no Sol, e nessa hora, nessa exata hora você aprende que para chamar a atenção pelos próximos tempos (pouco para uns, mais para outros) é só ficar bem quietinho em um canto estratégico da casa (canto, mas visível) e esperar que alguém venha verificar o motivo do silêncio, ‘criança quieta é mau sinal’, para que você reine absoluto no hall de assuntos ao fim do dia, ‘pois é, já estava pronta para sair quando eu vi que ele molhou a roupa toda, não sei o que está acontecendo com ele’. A sacanagem pode te render um psicólogo, umas palmadas ou uns míseros minutinhos de atenção entre o chuveiro e a roupinha cheirosa... Mas é sacanagem. E você aprendeu muito bem.

E como tudo que se aprende na infância vai refletir em nossos comportamentos, quem sabe até, pelo resto das nossas vidas, a chantagem emocional, essa forma cruel de fazer uso de toda eloqüência para comover/mobilizar o outro em seu próprio benefício, vai estar sempre lá, como uma carta sob a manga, como um trunfo nos momentos mais oportunos em que a verdade nua e crua ou a mentira deslavada não estão ao seu favor.

Da casa para a escolinha. Quantas maçãs professoras não receberam com o pedido implícito de se corrigir um teste com carinho? Quantas vezes você matou seu cachorro como desculpa para ter esquecido o dever de casa? Quantas vezes a barriga ‘doeu’ na hora do recreio, e com mais alguns ais e uis uma platéia levantaria para aplaudir de pé sua brilhante atuação, quando tudo que você almejava era o direito de assistir à Sessão da Tarde no conforto do sofá da sala?

E depois da escola? Depois da escola vem o trabalho, as amizades. Para todo problema, um ‘jeitinho’. Mas é quando o coração bate mais forte ou quando o tesão não lhe dá paz que você assimila e pratica as mais diversas modalidades desse famoso ‘jeitinho’ para chegar onde quer e com quem quer. E não precisa de nada muito elaborado, não. A coisa pode ser bem simples, quase simplória. Uma gotinha de perfume entre o pescoço e o ombro podem alucinar qualquer cristão de boa vontade.

As meninas aprendem desde cedo o poder de uma alcinha que teima em escorregar pelo ombro quando justificam o abraço mais que apertado daquele amigo que bem parece mais que amigo aos olhos do namorado. Aprenderam a sorrir com a cabeça meio baixa, aquele sorriso meio de lado seguido de um ‘ainda não’, quando fingem que querem convencer que o coitado do menino já foi longe demais. Bonito é o boboca achando que ela só cedeu porque ele insistiu. Ela ia dar desde o começo, acredite! Ela só quis te enfeitiçar. Até os cachorros aprenderam ainda filhotes o poder de uma carinha manhosa, seria demais achar que a sua garota usaria tanto charme sem querer nada em troca...

E os meninos? Os meninos, às vezes mais desajeitados, outras mais convincentes, não com o mesmo charme, mas contando com a sensibilidade do sexo feminino como aliada, também aprenderam a ganhar o que queriam usando uma fórmula muito simples: ‘Você + é + artigo definido + substantivo + adjetivo + da minha vida (ou expressão que o valha). Nada deixa uma mulher com a guarda mais baixa do que a sensação de ser única em algum quesito, é uma massageada no ego, um carinho no ‘eu’, não tem como resistir. Se ele sussurrar com carinho, ela acredita que é a mulher da vida dele, fácil, fácil.

E nos relacionamentos sólidos as chantagens emocionais ganham um dimensão ainda maior. Um show a parte. Fingir que o presente era a surpresa para o último minuto quando, na verdade, você só lembrou às onze da noite que hoje faz 1457 dias do primeiro banho de chuva de vocês dois, e você sabe que isso seria imperdoável. Quando o outro reclamar do ciúme dá pra soltar aquele ‘desculpa se eu te amo demais’ e ver a outra pessoa se derreter toda. Isso de transformar o ciúme em ‘amor demais’ é uma sacada genial. Ainda mais quando acompanhado de certo ar de culpa, como se amar demais naquela hora fosse algo que você gostaria de ter evitado, mas dada a infinita lista de qualidades do outro ser, foi inevitável. Vai dizer que não balança? Só se você, leitor, não tiver sido formalmente apresentado às graças do amor.

Coisas assim não se aprendem com cartilha, com ‘passo a passo’. A gente vai absorvendo, observando e quando menos espera, sabe exatamente como agir. É quase uma arte inerente a todo ser humano, mas que alguns aprimoram em níveis de doutorado dada a eficácia de seus discursos e gestos. Com o cuidado de quem retoca uma obra, dobra o outro sem esforço e depois fica tudo bem. É a arte da artimanha, usada em benefício da arte do amor. Me engana que eu gosto.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ao vivo com Maneco!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Caminho das Índias - AO VIVO!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Coerência, minha filha, coerência

Eu tenho uma relação bonita com as palavras, adoro a palavra delicadeza, adoro a palavra cu... Simples assim... Mas a última que tá me tocando no fundin do coração é coerência!

Nada mais bonito do que uma pessoa que age com coerência. Essa coisa de suas ações refletirem suas idéias, suas ideologias. Coerência tem a ver com ser honesto consigo mesmo, com seu passado, suas experiências, seu estilo de vida, sua criação. Mas coerência não é algo somente subjetivo... De você para você mesmo... Você tem que estar coerente com o mundo a sua volta, conectado de alguma forma com tudo que o cerca, sem isso parece que as coisas não fazem muito sentido.

E como eu gosto de exemplificar as coisas pelo exemplo mais besta mesmo aí vamos nós:

Situando: Estamos naquela época em que o inverno começa a dar tchau e a estação das flores (#holambra) está chegando, pois é, entrando naquela época de transição entre o verãozão que está por vir e o inverno que acabou de passar, mas de qualquer forma ainda é inverno e a qualquer momento um friozinho pode bater, então queridos e queridas, prestem atenção!

Não é porque fez um calor de 30 graus em pleno 15 de agosto que você vai enfiar um vestidinho de alcinha, curtérrimo e floridinho, uma rasteirinha de couro com tiras finíssimas e amarrar o cabelo num coque bem lá em cima como se o calor estivesse te fritando as glândulas! Não, meu bem, não dá! Mas tbm não dá para sair de bota e cachecol só porque é inverno e ao botar o pé sentir que sua roupa está cumprindo as funções de uma sauna...

Nesse caso, coerente é estar confortavelmente vestida para um dia mais quente, mas sem parecer que tá com síndrome de passarela (desfilando coleção de verão no inverno!). A saída? Os tecidos não sintéticos - que deixem a pele fresquinha, cores mais claras - para combinar com o dia ensolarado e passar a mensagem de leveza e equilibrar essas informações com comprimentos menos 'reveladores de pele', como bermudinhas, blusinhas em modelagens amplas que não colam no corpo mas deixam tudo cobertinho sem sufocar a cútis. Ou então, a outra ponta da coisa toda: encurtar comprimentos mas abusar de pecinhas com cores e materiais mais invernais. Saias curtíssimas com calçados mais pesados, vestidinhos curtinhos mas com jaquetas com cara de 'quentinha'.

A volta da boa e velha jaqueta jeans (mais lavada do que nunca, quaaaase branca meeesmo!), sapatilhas, lenços fininhos, prendedores de cabelo charmosos como tiaras ou grampinhos (só pra tirar o cabelo do rosto), tricôs de trama mais aberta/cor mais fechada ou trama mais fechada/ cores mais clarinhas são ótimas opções para dias em que o clima deixa de ser coerente com a estação do ano mas que nem por isso precisam ter esse desequilibrio refletido na nossa imagem!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Má-oêeee!

Que o Sílvio Santos tá ficando meio doido, a gente já sacou... Só que agora entrou todo mundo, literalmente, na dança!




O Asneiras agradece!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

De volta!

A gripe suína virou gripe A. O Michael Jackson virou defunto. Fez frio, calor, choveu (muito.) e fez frio de novo. Eu lavei três vezes meu All Star branco. Prometi que ia viajar e num viajei. Morguei muito em São Roque e comi tanto churros que quase (quaaaase) enjoei. Fiquei um tempão sem internet ( e dessa vez, pasmem, não senti falta). Namorei meu bofe um tantão e isso me deixa feliz da vida. Fui mais tia do que nunca e descobri que nasci pra isso. Morri de saudades da Anzi. Morri de saudades da Pri, da Patty, da Nones e do Netolino e acho que agora vou finalmente matar a saudade das Marcelas. Ouvi muita música boa e muita ruim-boa também. Não estudei o que deveria ter estudado. Andei de bicicleta e redescobri como é bom sentir o vento quando você solta o freio na descida. Viciei em água de coco. Comi biscoito de polvilho até dizer chega. E passei exatos dois meses de férias!

Tudo isso para dizer que o Asneiras tá de volta da terrinha e vai entrar em ritmo de SP logo, logo.

Afagos!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Asneiras de férias?!

Férias o caralho, na verdade é preguiça mermo e uma gripe que num me deixa parar em pé!

Mas depois de dançar quadrilha sob neblina, se acabar no quentão com cerveja e fazer a caipira com direito a traje obrigatório e tudo, não podia me restar nada além de ficar de cama!

A família Asneiras agradece a compreensão e promete voltar em breve com menos preguiça, menos espirros e uma carinha bem digna pra fazer até videozinho, to podendo, né?!

Afagos no fígado

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Asneiras... In Love

Com Marvin Gaye no mp3, o Asneiras larga o bofe descendo até o chão ao som de Lets Get it On e vem aqui para falar sobre o tão meloso 12 de junho, mais conhecido como Dia dos Namorados!

A roupa e as coisinhas mais

Meninas, por favor... Começo com vocês... Depilação em dia já é uma obrigação, hoje então, é um dever inadiável... Nada de periquitas peludas, please! ( O apelo inclui axilas, pernas e por aí vai...). Mas os meninos também têm que ficar espertos... Barbinha faz cócegas na coxa, mas se sua garota não curte, tire! Nada de deixar ela com boca de palhaço por conta a alergia a esse pelinhos que ficam pinicando! Se ela tbm curte costas, peitoral e outras cositchas mais lisinhos, tá esperando o que?!

Hoje seu amorzinho merece aquela caprichada, né? Trata de colocar uma roupa legal, perfumin na medida, arrume esse cabelo! Já disse em algum lugar aqui no Asneiras que considero a forma que você se veste quando vai sair com uma pessoa, uma forma de carinho, de demonstrar seu apreço por ela. E hoje é o melhor dia para trinar isso, né?! Se você capricha faz com que o outro se sinta especial, o que já é um presente, né?!

A roupa íntima é um caso a parte... Só não vale achar que é porque é dia dos namorados que você tem que se transformar em algo que não é... Se você não costuma usar lingeries suuuper sensuais, só faça isso hoje se vc estiver segura, tem pessoas que simplesmente não combinam com esse estilo e pronto!

Tudo novinho e cheirosinho é indispensável, né? Eu, particularmente amo cuecas boxer branquinhas, odeio qualquer coisa que num seja isso em um homem, então facilita, mas se a sua namorada curte outras coisas, invista!

O jantar
Na maioria das vezes a gente não consegue passar o dia todo com a pessoa, então o Dia acaba virando Noite dos Namorados e tudo vai começar lá na hora do jantar! A pontualidade já é item indispensável pra noite começar bem e ninguém ficar putinhozinho já logo de cara, mas homens do meu brasil, tenham paciência se a gente se atrasar cinco minutos!

Nada de encher a pança naquele restaurante que vocês adoram ir e comer até não caber mais! Hoje é dia de comer pouquinho, beber pouquinho, porque o jantar é paliativo para o que vem depois...Entenderam, né?

E não economizem, a não ser que seja uma decisão de ambos... Vale fechar o bolso uns dias antes para caprichar um pouco mais no vinho, né?

E para aqueles que vão comemorar em casa mesmo e aproveitar o clima intimista do lar doce lar, criar o clima é importante tbm, mesa bonitinha, tudo arrumadinho, é fácil e faz a diferença!

O presente!
A menos que vocês tenham uma birra estranha com sexo, não adianta, presente bom nessa data é uma bela gozada, dar o melhor de si e curtir o melhor do outro... Nao importa a vibe, selvagem, amorzinho, fetichista, seja em um motel, sofá, chão, carro, cama de solteiro o negócio é terminar o dia com uma trepada fenomenal!

Mas como falamos merda, mas nunca deixamos de ser romanticos, a gente sempre completa o presente com coisinhas meigas e carinhosas, cartões apaixonados, mimos fofos ou qualquer coisa que seu amorzinho esteja querendo.

Para os casados, não tem desculpa, casamento sem namoro não dá certo... Tem sim que lembrar, fazer ser especial, reanimar a paixão que a correria do dia-a-dia as vezes não te deixa manifestar da forma como seu 'benhê' merece!


Enfim, ricos ou pobres, alternativos ou chiquérrimos, desencanados ou melosos, não importa, o que vale é não deixar o dia de hoje passar em branco, e mostrar, mais uma vez, o quanto seu amor é importante para você!

E não me venha com papo de esta ser uma data capitalista, feita só para vender e blá blá blá... O fato é que ela existe, é hoje e merece ser comemorada!